A pequena saga de um estrangeiro em seu próprio país

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Saudações, Rubro-Negros!

Dessa vez gostaria de pedir licença a vocês para tratar de um assunto que não é relativo ao Flamengo. Honestamente, ainda pensava sobre o que escreveria, quando ontem, durante uma conversa com os demais integrantes do Conexão MRN no WhatsApp, a ideia de contar a história a seguir veio por sugestão do monstro Téo Benjamin, nosso companheiro aqui no site.

A história começou a se desenrolar na Alemanha, onde morei por quase três anos. Ali aprendi praticamente tudo o que sei sobre consciência cidadã, senso de coletividade e vida em sociedade, conceitos muito distantes da nossa realidade tupiniquim e quase nada difundidos aqui por essas terras. Não conheço muitos lugares no mundo, mas não tenho qualquer dúvida em afirmar que o brasileiro é o pior povo, o mais egoísta e o menos honesto dentre todos os que tive a oportunidade de conhecer mais de perto. Somos o tipo de gente que deve ser evitada.

Viver uma realidade como a que conheci na Alemanha, que, é bom que se diga, está bem longe de ser perfeita e também é cheia de problemas e contradições, fez com que eu caísse de amores por aquele país, aquelas pessoas e, claro, o seu futebol. Quis o destino, inclusive, que eu fosse morar numa cidade, Freiburg, cujo time, hoje um participante cativo da primeira divisão local, também tivesse o vermelho e o preto como suas cores. Algumas temporadas atrás, aliás, a camisa número um era idêntica à do nosso primeiro uniforme, com aquelas lindas listras negras e escarlates na horizontal. Foi muito fácil me apaixonar pelo Gigante da Schwarzwald (Floresta Negra).

Infelizmente foi necessário retornar ao Brasil, mas a distância não fez diminuir o amor que passei a sentir por aquele lugar e quase tudo que se referia a ele. Aliás, bem ao contrário. Chegando aqui passei a ser um entusiasta ainda maior da cultura e dos costumes germânicos, e é claro que o futebol não iria ficar de fora dessa. Me tornei um torcedor fanático da Nationalmanschaft, algo que poucos dos meus amigos e conhecidos conseguem entender e que eu também já não tenho mais a menor paciência em explicar. Principalmente quando o argumento que me dão é algo do tipo “Mas como assim você não torce pelo seu país?”. Ora, essas pessoas falam como se qualquer um de nós tivesse tido a escolha de nascer aqui ou em algum outro lugar do planeta, como se a nacionalidade de alguém não fosse fruto de eventos meramente casuais. Pior ainda: elas agem como se ter nascido num país fosse uma condenação perpétua a adorar, venerar, se empolgar e se identificar com tudo aquilo que diz respeito ao local em questão. Tem um sem número de coisas brasileiras de que eu de fato gosto muito, e tem um monte de outras que eu realmente detesto. E uma delas passou a ser a Seleção Brasileira.

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Sim, eu odeio a seleção do Brasil. Tenho respeito e admiração totais pela sua história e por aqueles que ajudaram a escrever essa mesma história; em contrapartida, detesto tudo aquilo em que ela foi transformada. E tenho absoluta convicção de que muito mais gente se sente da mesma forma. Acredito que a maioria desses ainda tem lá no fundo o desejo de voltar a ver a Canarinho com os mesmos olhos de quando éramos crianças ou mesmo adultos menos conectados à realidade das coisas e por isso mesmo menos capazes de enxergá-las como de fato são. No momento em que nos damos conta do que a seleção brasileira com seus jogadores mimados, esnobes, mal educados e novos-ricos cafonas de fato é, torna-se impossível sustentar essa fantasia. Em vez disso, tomamos nojo. A seleção do Brasil me causa asco. Basta que os primeiros acordes do hino nacional comecem a soar para que meu estômago se revire todo dentro da barriga.

E foi com esse sentimento que assisti à Copa de 2014 e àquela orgia promovida pela Alemanha contra o Brasil em pleno Mineirão. Foi um dos dias mais felizes de toda a minha vida. A sensação não poderia ter sido melhor e mais reconfortante. Lembro que ao final da partida da Nationalmanschaft contra os franceses, no Maracanã, pelas quartas-de-final, fui com meu compadre tomar uma cerveja num bar próximo ao estádio. Eu estava todo caracterizado. Vestia a camisa rubro-negra dos alemães, a mesma que usaram naquele 7 a 1 maravilhoso e que foi inspirada em nosso Manto, e tinha ainda uma bandeira enorme amarrada às costas. Conforme os franceses saíam do Maraca e passavam pelo bar eu os “saudava” com cânticos que aprendi assistindo aos jogos da Seleção Germânica nos tempos em que vivi por lá. Eles não entendiam muito bem o que estava se passando, os demais brasileiros presentes ao bar também não, e menos ainda os alemães, que agora chegavam para celebrar a vitória de sua equipe. Foram muitas as explicações que tive de dar, inclusive para uma equipe de reportagem de uma TV alemã, que queria saber o que aquele gordo mameluco fazia vestido daquela forma e dizia torcer para que o Brasil passasse pela Colômbia mais tarde e assim se credenciasse para ser a próxima vítima. Ficaram tão impressionados, que pediram meu número de telefone e fizeram uma entrevista rápida comigo horas antes daquela semifinal memorável.

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É óbvio que em momento nenhum imaginei que seria um jogo fácil. Tinha certeza de que passaríamos, pois nosso time era muitíssimo melhor e estava mais bem preparado, só não contava que o Felipão fosse escolher justo aquele jogo para mostrar quão miseravelmente defasado estava e o quanto ele e 99,9% dos brasileiros, fossem eles torcedores, jornalistas ou o que quer que seja, estavam enganados quanto ao que já há pelo menos uma década vinha acontecendo no esporte em nível mundial.

Deveria ser evidente para qualquer um que se diga minimamente familiarizado com o assunto, mas a verdade é que a imensa maioria foi pega de surpresa. Foi o maior choque de realidade de que se tem notícia na história de uma nação, e não poderia ter vindo em hora mais adequada. Foi muito lindo acompanhar tudo aquilo.

É certo que com Tite e seus escolhidos o Brasil fará um papel muito mais decente na Rússia. E se levarmos em consideração apenas a última impressão deixada pelo time de amarelo, então nem será preciso muito esforço para isso. Acredito, pois, que o Brasil terá um desempenho digno de sua história, embora ainda insuficiente para fazer renascer em mim ou em qualquer outro ex-torcedor aquele sentimento de representatividade, porque esse morreu para sempre. E isso, meus caros, tem bem menos a ver com futebol do que vocês podem imaginar. É muito mais uma questão de caráter.

SRN

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Imagem destacada no post e nas redes sociais: Divulgação / FIFA


Fabiano Torres, o Tatu, é nascido e criado em Paracambi, onde deu os primeiros passos rumo ao rubronegrismo que o acompanha desde então. É professor de idiomas há mais de 25 anos e já esteve à frente de vários projetos de futebol na Internet, TV e rádio, como a série de documentários Energia das Torcidas, de 2010, o Canal dos Fominhas e o programa Torcedor Esporte Clube, na Rádio UOL.


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