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Téo Benjamin analisa a vitória do Flamengo sobre o Atlético Mineiro. Outra grande exibição no Maracanã do time de Jorge Jesus.

Por Téo Benjamin – Twitter: @teofb

Você já assistiu a um jogo e teve a impressão que os comentaristas só falavam frases óbvias e vazias? Claro que sim. Todo mundo já passou por isso! Pois a vitória do Flamengo sobre o Atlético-MG foi o paraíso do óbvio. Vamos pro fio!

No manual do comentarista óbvio, existem quatro maneiras de furar uma retranca:

1- Chute de fora da área;

2- Bola parada;

3- Jogada individual;

4- Erro da defesa.

Como se construiu a vitória do Flamengo? De um chute de fora de Rafinha, nasceu o escanteio que originou o primeiro gol. No segundo, jogadaça de Vitinho, desequilibrando toda a defesa. No terceiro, uma sucessão de erros dos zagueiros atleticanos. Está aí a vitória!

Sim, de alguma maneira, essa é a história do jogo. O Flamengo mostrou que tem ferramentas à disposição, tem repertório. Fez tudo para entrar no ferrolho do Galo. Mas chega de obviedades… Vamos aos detalhes!

O Fla praticamente repetiu a escalação do último jogo contra a Chapecoense. A única exceção foi a entrada de Rhodolfo no lugar de Rodrigo Caio, que está na Seleção. Manteve-se o 4-4-2, apesar de algumas mudanças de comportamento – que veremos a seguir – pela postura do adversário.

O Atlético veio com uma linha de cinco atrás, fato inédito contra o Flamengo de Jesus. Um time muito recuado e muito organizado, que tinha acima de tudo a missão de proteger a área. Ricardo Oliveira, o homem mais avançado, costumava ficar na intermediária do campo de defesa.

O Atlético mostrou ao mundo um modelo possível para enfrentar o Flamengo. Como outros adversários também fizeram, o time mineiro abdicou de jogar. Mas, dos que “não jogaram”, o Galo foi o que melhor protegeu a sua própria área. O Fla teve dificuldades para entrar.

Como o Atlético ficava muito recuado desde o início da jogada e não oferecia nenhuma pressão na saída de bola, o Flamengo subia e virava um 2-4-4 na sua fase de construção. Assim, tentava trabalhar a bola de um lado e virar o jogo rápido para decidir a jogada pelo outro lado.

Mas a linha de 5 do Atlético não se desmontava nunca. Com isso, a virada de jogo encontrava alguém já marcado pelo lateral e o zagueiro fechando o espaço na cobertura. Uma muralha. Nesse sentido, o 5-4-1 funcionou muito bem. Mas ninguém aguenta 90 minutos de pressão contra o Fla.

E foram 90 minutos de pressão! O Atlético teve apenas 33% da posse de bola e, mesmo assim, METADE dessa posse foi na defesa! Muito difícil segurar, mesmo que o Fla não criasse muitas chances claras de gol!

Fonte: Footstats.
Fonte: Footstats

Quando a jogada saía pela esquerda, Vitinho (ou BH) recebia aberto, enquanto os dois atacantes pisavam na área. Quando saía pela direita, Reinier abria para atacar a linha de fundo e Vitinho e BH se juntavam na área. O 4-4-2 tinha ares de 4-3-3, mas com inferioridade numérica na área.

Na minha humilde opinião, Jorge Jesus poderia ter usado mais as infiltrações de Arão para ser um homem a mais na área. O volante não era tão necessário no “balanço defensivo”, já que o Atlético ficava recuado. Foram muitas bolas que cruzaram a área e o Flamengo não aproveitou.

Aliás, você percebeu que quase todos os cruzamentos foram rasteiros e fortes, da linha de fundo para trás? Certamente foi uma orientação do treinador para compensar a falta de gente na área e a imposição física dos zagueiros atleticanos com velocidade e mobilidade.

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Mas faltava um pé para colocar a bola para dentro. Ser atacante não é apenas estar no lugar certo. É estar no lugar certo, na hora certa. Às vezes, é necessário atrasar a passada para invadir a área um pouco depois. Às vezes, é preciso acelerar.

Essa é a grande virtude de Gabigol. Ele tem uma excelente leitura de espaços, mas também tem uma excelente leitura do momento certo para atacar esses espaços. Sabe quando deve acelerar ou não. Reinier não conseguiu encontrar esses cruzamentos. Nesse quesito, tem muito a melhorar.

Lá atrás, o Flamengo não sofreu. Os únicos momentos de preocupação na arquibancada foram dois ou três chutões aleatórios de Rhodolfo para cima, que deixaram a bola viva. É impressionante como é importante uma zaga que acalma a bola. Pablo Marí é demais.

O gol atleticano foi a única exceção. Quando Marí saiu no combate, Rafinha e Rhodolfo deveriam se adiantar. Como recuaram, Rhodolfo teve que acompanhar a infiltração do atleticano em diagonal e abriu um espaço que Nathan aproveitou com maestria.

Ao fim dos 90 minutos, quatro jogadores do Galo colocaram as mãos nos joelhos. Dois foram ao chão. Estavam extenuados. O Flamengo, de pé, tranquilo, ainda foi lá agradecer a torcida. Nada mal para um time que vem jogando em intensidade máxima há várias semanas.

Segue aquela série de coincidências no Campeonato Brasileiro. Mais uma vez um time vem jogar contra o Flamengo e faz uma “partida abaixo”, tem uma “noite infeliz” e perde “com erros bobos”. Para os comentaristas do óbvio, Jorge Jesus deve ter muita sorte mesmo. Sorte de líder!

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