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Passar adiante às ideias de que o catalão é culpado ou errou, apenas colabora com quem gosta de futebol retrancado e ultrapassado

Blog Ninho do Urubu | Bruno Guedes – Twitter: @eubrguedes

Em sua primeira partida como técnico do Flamengo, Domènec já sentiu na pele o que é treinar o clube. A pressão por vencer foi tão grande quanto as reclamações de forma absurda já apareceram. Com apenas três dias de trabalho e pouca coisa alterada, enfrentou um Atlético-MG fortíssimo taticamente e cujo treinador conhecia muito bem o Rubro-Negro.

Como alertamos na semana passada, o catalão não iria fazer nenhuma mudança radical neste começo. E não fez. Manteve não só a escalação, como o padrão tático que Jorge Jesus vinha utilizando. As únicas instruções aconteceram no aspecto da posse de bola. O time esteve mais paciente em buscar espaços e não acelerar tanto as jogadas. Mas, com toques rápidos e mais verticais, continuou forçando bastante a defesa do Galo.

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Porém, do outro lado, não tinha um técnico qualquer. Jorge Sampaoli tinha enfrentado o mesmo Flamengo duas vezes ano passado. Perdeu a primeira partida por 1 a 0 no Maracanã, com gol do Gabigol, e venceu por 4 a 0, na última rodada, quando a equipe do Mister estava com a cabeça no Mundial. Com essa carga crucial de informações, sabia que Dome não mexeria na estrutura em tão pouco tempo. Se valendo dessas experiências prévias, tratou de impedir que o adversário tivesse liberdade para criar e ter a bola.

Quando tinha a bola, o Flamengo foi extremamente pressionado pelo adversário. Algo que pouco se viu neste período de sucesso do clube. Sem medo de se expor, Sampaoli subiu a sua equipe e marcou ainda a saída com os zagueiros e volantes. Usou a mesma estratégia vencedora do Jorge Jesus. Intenso durante os 90 minutos, prejudicou muito a ideia de jogo do Domènec.

Durante o primeiro tempo, Sampaoli tentou criar uma linha de cinco defensores quando perdia a posse e colocando três zagueiros. Como o trio Gabigol, Bruno Henrique e Arrascaeta continuou a trocar de posições constantemente, mas agora pelo lado do lateral direito Guga, o efeito não foi o esperado. Ficou com um jogador a mais na defesa, perdendo o meio-campo e com Gérson e Arão livres para municiá-los. Éverton Ribeiro, outro que se mexeu bastante, ora caía pela esquerda, ora pela direita. Entretanto, sem os companheiros se aproximando, acabou bem marcado.

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DEFESA

Quase nada mudou do Flamengo do Jorge Jesus para Domènec. A não ser os laterais menos ofensivos que de costume. Mas esta particularidade pode ter duas explicações: a primeira é que Arrascaeta e Bruno Henrique caíram pelo mesmo lado (esquerdo), fazendo com que Filipe Luís subisse pouco. A segunda, aí sim alheia à vontade do novo técnico, foi que Sampaoli, estrategicamente, forçou o meia-atacante Marquinhos em cima do Rafinha. Pressionado, o lateral pouco conseguiu subir. O que contribuiu, também, para a pouca participação do Éverton Ribeiro.

A zaga formada por Léo Pereira e Rodrigo Caio teve problemas grandes só a partir do segundo tempo. E aí tem dedo, novamente, do técnico argentino do Atlético. Percebendo ainda na primeira etapa que perdia meio-campo e pouco criava, tirou um dos zagueiros e passou a jogar em cima dos volantes Gérson e William Arão. Além de neutralizar a criação do Flamengo, passou a jogar nas costas deles e dos laterais. O efeito foi de anular qualquer criação que antes era boa do Rubro-Negro.

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A saída de bola, extremamente prejudicada pela pressão constante do Atlético, alternou entre a tradicional “com 3”, onde Arão aparece entre os zagueiros ajudando na transição, e a com os defensores pelos lados. Vale destacar que, mesmo pressionados, poucos foram os chutões ou rifadas para frente. Por que? Porque justamente é esta a intenção do adversário que pressiona, que ele perca a posse. O Flamengo trocou 527 passes, sendo 425 certos (81%). Números elevados e bons.

ATAQUE

A parte ofensiva do Flamengo se divide entre primeiro tempo e segundo tempo. Mesmo com cinco defensores, o Atlético deu muitos espaços por causa do excelente entrosamento do trio flamenguista. E se safou de sair da primeira etapa perdendo por três gols de diferença por falta de pontaria de Gabigol, Arrascaeta e Bruno Henrique. Uma tarde atípica para os mortais atacantes. Perderam chances que não perdem. E com bastantes movimentações.

Durante a semana o Venê Casagrande, do Jornal O Dia, trouxe a informação de que Domènec treinara o uruguaio como falso 9. Isso aconteceu ao menos uma vez. Porém não é novidade, Jorge Jesus usou Arrasca assim diversas vezes. No último domingo, entretanto, ele estava mais atuante pelo mesmo lado que Bruno Henrique. Estratégia de forçar o lado direito do Atlético-MG. Talvez Domènec e seus auxiliares tenham percebido alguma fragilidade nas análises. Funcionou. Só não foi decisiva por falta de gols.

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Após o intervalo, mudou tudo. O trio sumiu. Sampaoli percebeu que a bola chegava muito neles por conta da boa transição que Gérson e Arão faziam. Trocavam passes e, quando tocavam neles livres pelo meio, perdido nos primeiros 45 minutos pelo Galo, aceleravam e pegavam o sistema defensivo mineiro se recompondo.

Éverton Ribeiro ficou “solto”. Ainda que atuando mais pelo lado direito do Flamengo, participou em diversas áreas do campo. Mas, isolado, acabou sendo prejudicado por isto e, no segundo tempo, pela marcação ainda mais forte e que impedia a chegada da bola no capitão. Certamente Domènec observou não só isso, como o talento dele para criar mais e deve ajustar para que seja mais aproveitado. Ao encher o time de atacantes, cinco no total, o camisa sete saiu e acabaram por completo os aspectos “cerebrais” do Rubro-Negro.

E por que tantos atacantes? A explicação parece óbvia para quem acompanha com mais frequência os trabalhos do Guardiola e seus discípulos. Ao contrário da ideia enraizada por aqui no Brasil, função e posição são coisas diferentes. Diversas foram as vezes em que Pep usou até dois atacantes de lado juntos, tudo para forçar não só a defesa adversária a ficar recuada, como achar espaços, aumentar a concentração de rivais naquele setor e deixar vago em outro.

Para isso, os laterais, tais como Rafinha e Filipe Luís, são transformados nos principais construtores das jogadas e armações, mais pelo meio-campo. Mas não funcionou neste primeiro jogo, principalmente, por causa do pouco tempo de treino. Só que esta ideia não só vai aparecer com mais frequência nas próximas rodadas, como pode ser alternativa incomum para aqueles que já “sabem” como o Flamengo jogava com Jorge Jesus.

Foi o primeiro jogo. Ainda que algumas opiniões beirando ao humor já estejam por aí, não se pode colocar nada na conta do Domènec por enquanto. E nem nas próximas partidas. O mesmo aconteceu com Jorge Jesus, que chegou já com partidas decisivas e só foi construir as suas ideias quase um mês depois. Passar adiante às ideias de que o catalão é culpado ou errou, apenas colabora com quem gosta de futebol retrancado, ultrapassado e cujos treinadores só ganham Campeonato Estadual.

Fonte dos dados: SofaScore

*Créditos da imagem destacada no post e nas redes sociais: Alexandre Vidal / Flamengo

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