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Flamengo segue subindo em campo e na tabela, além de mais um técnico estrangeiro mostrar novas ideias para um país que vive o paleolítico tático

Blog Ninho do Urubu | Bruno Guedes – Twitter: @eubrguedes

Antes da partida contra o Bahia, quando a escalação do Flamengo modificada por lesões e jogadores desgastados saiu, a turma que se nega a perceber o atraso do futebol nacional gritava. De “técnico maluco” a “experiências desnecessárias” eram escritas ou faladas a respeito do Domènec. Com um minuto eles começaram a rever um velho filme que assistiram em 2019: dogmas sendo pulverizados pelas ideias de quem sabe o que faz.

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Virou algo comum a admiração quase messiânica de parte da imprensa e torcedores por alguns nomes que mais nada oferecem ao futebol. São eles que sempre aparecem a cada vez que um estrangeiro perde, mas desaparecem quando seus ídolos vão mal. Nas últimas duas semanas todos apareceram. A plateia sentou na primeira fila para torcer contra o Doménec e repetir o mantra: “Não precisamos deles, somos penta”. Só que virou um filme de terror.

A máxima de revezar os jogadores vem da decorrência de um calendário desleal e que forçar entrar em campo quase que a cada 72 horas. Com esse tempo é humanamente impossível recuperar por completo a parte física. Segundo estudos, inclusive feitos por profissionais que trabalharam com o atual técnico rubro-negro na época de auxiliar do Guardiola, a cada três jogos seguidos com esse intervalo de recuperação, a chance de lesões aumenta em 66%. Trocar peças é fundamental e será decisiva lá na frente da temporada.

O Flamengo fez sua melhor partida não só do Brasileirão, como desde as finais do Campeonato Carioca. Ainda que facilitada pelos muitos erros defensivos e de marcação do Bahia, principalmente na abertura de espaços por onde Arrascaeta e Éverton Ribeiro deitaram e rolaram, o time com jogadores mais bem fisicamente renderam o que se espera nessa nova fase com Torrent. Agressivo sem a bola e muito paciente com ela, a equipe mostrou as diversas ideias do catalão.

A começar pela marcação dentro do campo adversário, algo que não vinha acontecendo por conta da forma física longe da ideal nas partidas anteriores. Com atletas mais bem condicionados, o Flamengo conseguiu pressionar e roubar bolas decisivas perto do gol do Bahia. Pedro, jogando como centroavante clássico, ajudou muito em prender a marcação baiana. Foi desta maneira que aproveitou quase 100% das suas chances. Pedro Rocha, menos aberto que Bruno Henrique que foi poupado com dores, conseguiu ajudar nessa abertura de espaços.

Porém o grande diferencial foi a dupla Arrascaeta e Éverton Ribeiro. Habilidosos e criativos, jogaram atrás dos volantes da equipe do Nordeste e, com muitos passes em triangulação entre eles, conseguiram desmontar o sistema defensivo do Bahia. Um exemplo foi o terceiro gol, com a marca guardiolista. Com quase todos os toques de primeira, o golaço surgiu da maneira como Dome esperar ter seu time futuramente: envolvendo o adversário através da posse.

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Como ainda é uma equipe em formação, novamente teve problemas por conta dessa transição e mudança de filosofia. A defesa continua sendo um problema. Recompondo mal, dá muitos espaços à frente da zaga e proporciona aos adversários oportunidades para criação. Novamente por conta de estarem distante da forma física ideal, essa volta é ainda lenta e bem diferente da recomposição quase instantânea do ano passado.

Renê, no lugar do Filipe Luis que vem de desgaste após a maratona de jogos, mais uma vez foi muito bem. Um jogador por vezes injustiçado, sempre corresponde quando acionado. Sério na marcação e eficiente no apoio. Bem como Isla, que parece estar jogando nesse time há meses. Reposição à altura do Rafinha.

Algo a se observar é que sem tempo para treinamentos, Torrent vem observando o potencial do elenco e conhecendo as suas características durante as partidas. Foi assim que colocou Diego no lugar do Thiago Maia e este atuou mais recuado, como segundo volante de fato. Iniciou as jogadas e deu total controle ao meio campo. Mais pro fim, Lincoln, que ainda não havia jogado com Dome, entrou para a saída de Pedro. Isla, ainda longe da condição ideal, deu lugar a Thuler.

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Quem está acostumado com o fraco futebol praticado no Brasil, onde basta “fechar a casinha e dar a bola pro adversário” e “garantir os três pontos”, novamente se decepcionou. Continuarão a tentar achar defeitos e minimizar o trabalho do Domènec Torrent, cuja metodologia e prática são altamente complexas, precisam de tempo. Continuarão a chamá-lo de “professor Pardal”. Eles não entendem o que acontece. De novo.

Um resultado mais que importante, para convencer quem ainda duvidava de que o catalão vai criar um novo time. Se no ano passado os apressados correram para gritar pelos seus amigos técnicos que não oferecem mais nada de novo para o futebol brasileiro, desta vez repetiram o erro. Enquanto isso, o Flamengo segue subindo em campo e na tabela, além de mais um técnico estrangeiro mostrar novas ideias para um país que vive o paleolítico tático.

*Créditos da imagem destacada no post e nas redes sociais: Alexandre Vidal / Flamengo

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