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segunda-feira, janeiro 18, 2021

Balanço 2017.3: Meio cheio, meio vazio

Divulgados os resultados financeiros do 3º Trimestre, é hora de ter um olhar mais apurado sobre o panorama das finanças do Clube de Regatas do Flamengo.

Perdi a conta de artigos que escrevi exaltando a notável recuperação financeira do clube de 2013 em diante – assim como no período anterior eu já destoava da maré de baixo astral e via que em meio a tanta desgraça o clube plantava timidamente sementes para crescer.

O balancete trimestral desse último ciclo chega em um momento muito sofrido para a torcida, que sonhou com um 2017 mágico e agora convive com a ameaça de um ano quase trágico. E a divulgação dos números despertou a reação padrão “ok, os caras são bons de finanças, os números provam isso, mas são um fracasso completo no futebol”.

Sem querer trazer mais frustração a um ambiente já depressivo, eu acho que a evolução das finanças do clube encerrou o seu ciclo e é agora que realmente a competência da gestão vai passar pelo seu batismo de fogo.

No trimestre anterior celebrei um fato que deveria ser corriqueiro, mas que no Flamengo era absolutamente inusitado: o patrimônio líquido positivo. Patrimônio líquido negativo era a verdadeira herança maldita que o clube carregava, pois significava que a soma de suas obrigações era maior do que o seu ativo, retrato de uma instituição falida. E finalmente, em 30/06/2017 o clube deixava de ficar tecnicamente no vermelho.

Até então, todo o superávit gerado com grande esforço pelo clube era anulado pelos anos – quiça décadas – de prejuízos acumulados. E a onda de boas notícias do passado recente, turbinada pela venda inesperada de Vinicius Jr., finalmente zerou o placar. O Flamengo, tal como sonhamos, nasceu oficialmente em 01/07/2017.

A caminhada até aqui foi encurtada pelas chamadas “receitas não recorrentes”, isto é, arrecadação proveniente de fatos que não se repetem habitualmente, como as luvas do contrato da TV Globo e a venda de Vinicius Jr. para o Real Madrid. Por mais que não dê para esquecer que no ambiente de negócios de futebol o comércio de direitos federativos é parte importante da vida financeira da instituição, não é saudável e prudente contar com ele.

A receita do Flamengo segue fantástica, R$ 509 milhões. No entanto, ela já havia sido de R$ 409 milhões no trimestre anterior – ou seja, a receita específica do trimestre que ora se encerra foi de “apenas” R$ 100 milhões. A repetição dessa performance em exercícios futuros projeta um orçamento ainda poderoso, porém abaixo do patamar dos sonhos de um clube verdadeiramente rico.

Isso vai obrigar o clube a ser mais criterioso no dispêndio de seus recursos. E o balancete do 3o trimestre traz uma informação um tanto preocupante no que diz respeito ao investimento em direitos federativos. Acompanhem:

E onde esse salto de investimento ocorreu? O clube destaca os investimentos de direitos federativos em Berrio, Renê, Everton Ribeiro, Rhodolfo e Diego Alves, além da assinatura de contratos de direito de imagem com Rômulo, Geuvânio e Alex Muralha. Sim, eu preferia poder “desler” a última frase, mas está lá, item 8.2, p. 17.

Portanto, em pouco menos de 2 anos, o Flamengo mais do que triplicou o seu investimento em direitos de seus atletas e em 6 meses quase dobrou. O tempo é o senhor da razão e nos dirá se valeu a pena ou não – mas a impressão inicial, convenhamos, dispensa comentários.

Sei que alguns já estão aborrecidos o suficiente, mas não resisto à tentação de transcrever uma tabelinha do balancete, a que detalha o que ainda falta pagar de direitos de imagem para alguns atletas. Preparem-se:

Sobre direitos federativos do elenco atual (vou deixar Hernane Brocador de fora porque faz parte do rolo da ação de cobrança dos árabes), ainda tem mais de R$ 12 milhões de parcelas a vencer. Em números redondos, são mais ou menos R$ 6,2 milhões pelo Berrio, R$ 2 milhões pelo Mancuello, R$ 1,5 milhão pelo Rodinei, R$ 1 milhão pelo Renê e o resto a gente não sabe de quem é.

Outro item que gostaria de chamar atenção é que no Flamengo só o futebol é superavitário. Os Esportes Olímpicos tiveram um pequeno prejuízo de R$ 1 milhão e os “Outros” (que imagino ser o clube social) ficaram R$ 19,5 milhões no vermelho, muito por conta de “outros custos”, que passaram de R$ 11 milhões. Aliás, embora a transparência tenha melhorado bastante, ainda tem espaço para evoluir, afinal R$ 11 milhões de “outros custos” em “outras despesas” é simplesmente deixar a gente sem saber onde foi parar tanto dinheiro.

Mas calma lá, tem muita notícia boa também.

A conta de empreśtimos financeiros está praticamente zerada, empréstimos com vencimentos acima de 1 ano somam “apenas” R$ 7 milhões. E a provisão para contigências, isto é, o dinheiro que pode vir a ser gasto em ações judiciais onde o clube é réu caiu para R$ 41 milhões. Além disso, o clube tinha mais de R$ 36 milhões em depósitos judiciais. Ou seja, dá para dizer que dívidas de credores privados deixaram de ser um problema e o Flamengo finalmente é uma instituição “normal”, que enfrenta demandas legais e toma cŕédito no mercado compatíveis com o seu porte.

Ademais, a dívida de tributos também está equacionada. Já estava, aliás, com o parcelamento do PROFUT, mas vale o registro de que ela hoje já é de menos de R$ 300 milhões.

Considerando esses fato, se nada de diferente acontecer nos ṕróximos meses a gestão do próximo triênio encontrará um clube saneado, sem nenhuma herança do passado para lidar.

A arrecadação segue boa. A bilheteria dos 9 primeiros meses foi de mais de R$ 47 milhões, mais de 66% superior ao do mesmo período do ano anterior. E ST, perto de R$ 32 milhões, cresceu mais de 67% em comparação a 2016. O mais incrível: a arrecadação direta do torcedor (ingressos + ST) ficou a um triz de alcançar R$ 80 milhões no período e já quase R$ 9 milhões por mês.

Morro de rir quando vejo gente dizendo que o plano de ST do Flamengo é ruim….só se for para quem paga ou para quem torce para o Vasco. Para a instituição Clube de Regatas do Flamengo o programa é um sucesso estrondoso, porque rende uma grana preta e não canibaliza a receita de bilheteria. Colocando em perspectiva, os STs rendem 3,5 vezes mais do que as mensalidades dos sócios do clube – e não reclamam da piscina ou do piso de saibro das quadras de tênis.

Eu olho para o Flamengo em números na data de 30/09/2017 me lembrando de um adesivo que era moda nos anos 90 entre pessoas cristãs: Até Aqui Nos Ajudou O Senhor! Por méritos indiscutíveis da gestão financeira implantada a partir de 2013 e ajudado por alguns sopros da sorte, o Flamengo saiu do buraco.

E lembro também de outro clichê: esse balancete trimestral remonta à parábola do copo meio cheio ou meio vazio. Tanto é possível comemorar e projetar um futuro auspicioso a partir do ponto em que estamos como também dá para temer que o clube possa vir a negligenciar os desafios adiante, porque os gastos estão elevados e o insucesso desportivo pressiona por ainda mais elevação.

A avaliação que eu faço desse trimestre em particular vai no sentido contrário da percepção quase generalizada que professa ser o Flamengo um clube gerido por gente que só pensa em dinheiro e superávits. Penso que os numeros provam que o clube reagiu à eliminação da Libertadores acelerando fortemente os seus gastos, o que infelizmente não representou um ganho desportivo imediato.

E como a direção tem dado demonstrações de sempre reagir aos gritos da massa anônima atendendo seus desejos, meu temor é que os gastos/investimentos disparem, diante da falsa ideia de que estamos nadando em dinheiro. Definitivamente não estamos. E gastar dinheiro a rodo, como a realidade nos prova a cada rodada do Brasileirão, não é garantia de conquistas. No entanto, a falta dele, tenham certeza disso, é um passo certo na direção do fracasso.

Só peço a São Judas Tadeu que não nos abandone de ora em diante. A situação financeira ainda inspira cuidados e agora até mais do que antes, porque gastamos nossa gordura. Daí porque o santo precisa dar aquela ajudinha básica, seja para fazer o investimento corresponder, seja para dar aos dirigentes a serenidade necessária para resistir ao clamor por mais gastos.

E daqui a 3 meses eu volto para falar do balanço anual, mas já antecipo uma má notícia… Quando dezembro chegar, vamos ter que falar de Marcelo Cirino.

 


Walter Monteiro é advogado com MBA em Administração. Membro das Comissões de Finanças do Conselho Deliberativo e do Conselho de Administração do Clube de Regatas do Flamengo. Escreve sobre o Flamengo desde 2009, em diferentes espaços.

 
Imagem destacada no post e nas redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo

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