A torcida do Flamengo no divã

Allan Titonelli
Allan Titonelli é rubro-negro, amante do futebol, gosta de jogar uma pelada, assistir partidas, resenhas esportivas ou debater com os amigos sobre “o velho e violento esporte bretão”. Escreveu, ao lado de Daniel Giotti, o livro “19 81 – Ficou Marcado na História”.

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Frustações com Dome e Ceni, em contraponto aos sucessos de JJ e Abel Ferreira, escancaram o fenômeno da transferência na torcida do Fla

Blog Ficou Marcado na História | Allan Titonelli – Twitter: @AllanTitonelli

Sigmund Freud, o pai da psicanálise, dizia que “Nós nunca somos tão desamparadamente infelizes como quando perdemos um amor”. E assim foi “caindo a ficha” da torcida do Flamengo após a partida de Jesus, e seu afastamento dos estádios, ante a pandemia de Covid-19. A conexão do técnico português com a torcida rubro-negra foi como amor à primeira vista. Só ele entendia seus problemas mais profundas na alma, e conseguiu cicatrizar todas as suas dores com as conquistas e um futebol virtuoso. E o insucesso dos dois técnicos subsequentes fez esse sentimento aumentar.

Todavia, no princípio, a confiança ainda era grande, nem essa perda lastimável conseguiria colocar um tom dramático no ânimo dos torcedores. Veio Dome e o pensamento que o Catalão daria sequência a “uma era de conquistas e domínio”. “Dome é discípulo de Guardiola, vai deitar e rolar no futebol brasileiro” ou “Dome vai tornar o Flamengo o Barcelona das Américas” foram algumas das frases ouvidas (ou similares delas) na época. Todavia, o começo claudicante serviu para colocar “as barbas de molho”, e mudar o discurso. Logo após algumas goleadas sofridas já se ouvia que “o estagiário não ia dar jeito no time”. O clamor por mudança já encontrava grande eco na torcida apaixonada. Ressoando frases do tipo “se não mudar agora perderemos a temporada.”

Do mesmo autor: 23 de Novembro ficou marcado na história rubro-negra

Nessa ânsia e desespero já aceitávamos até técnico identificado como ídolo de outro time brasileiro, nem lembrávamos que tínhamos vaticinado que “nenhum técnico brasileiro prestava” ou que “a partir da experiência com Jesus, e a pseudo pobreza tática dos técnicos brasileiros, só comandaria o Flamengo técnicos estrangeiros.” Então, para salvar a temporada, chegou Rogério Ceni. “Pelo menos esse conhece o Brasil e os times brasileiros”, “ele sabe armar uma boa defesa”, “sua experiência campeã como jogador vai ajudar o time a sair dessa”, entre outras frases desse gênero foram bradadas no início. Todavia, as eliminações na Copa do Brasil e na Libertadores flambaram o caldeirão, culminando com duas derrotas seguidas no Brasileiro, seguindo-se de pensamentos do tipo: “Rogério só serve como técnico para time pequeno” ou “se ele continuar nem vaga na Libertadores conseguiremos”.

Rogério Ceni
Freud explica! Torcida do Fla segue indo do céu ao inferno para reviver felicidade da Era Jesus. Imagem: Divulgação / Netflix

A cabeça de Rogério está na guilhotina, parecendo que vai ser demitido a qualquer momento, e a torcida já clama por um treinador português, embalados pelo amor a JJ e o sucesso de Abel Ferreira no Palmeiras, mas esquecem que Pinto Sá não deu certo na Colina. Talvez, seja consequência do fenômeno da transferência na psicanálise, em que substituímos o amor ou outra admiração, como solução dos problemas, sendo hoje nosso novo amor um técnico português, se não com Jesus, vai ter que ser com outro mesmo, o que comanda é a nacionalidade. De outro lado, há uma certa racionalidade, com o sucesso de vários técnicos portugueses pela Europa. Eu estou dentro desse bonde também. É só não dar muita bola para o que dizia Nelson Rodrigues e esse lance de que “toda unanimidade é burra”. E lá vamos nós frequentar o divã de novo.

Allan Titonelli é coautor do livro 19 81: Ficou Marcado na História. Compre aqui: https://amzn.to/3nQSneB

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