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“Deixou Chegar” resgata a memória de uma conquista que ficou espremida entre o apagar das luzes dos anos 1990 e a década que se tornaria o período mais turbulento da nossa existência, e acabou não sendo valorada do modo correto

Por Mauricio Neves – Twitter: @flapravaler

Os anos 1990 começaram com um gosto de fim de festa para o Flamengo. Olhar em retrospectiva para a década anterior seria ter a certeza de que o futuro imediato não teria como competir com aquele passado recente, tão vivo na memória. O ano de 1990 começou triste demais: Zico faria seu último jogo com o Manto no dia 6 de fevereiro, um tempo entre os mundialistas de 1981, outro com o time que teria que seguir sua trajetória com Edu Marangon com a camisa 10, suspiro. Para piorar, Junior assegurava que só jogaria o estadual e no meio do ano trocaria os gramados pela areia. É verdade que ele ainda faria muito, se tornaria o Maestro e só pararia em 1993, renovando o contrato semestre após semestre, mas naquele início de 1990 nós tínhamos duas verdades: adeus a Zico em fevereiro, adeus a Junior em junho. Era melhor não olhar para trás, sob pena de não conseguir viver a realidade que se anunciava.

O maior contraste entre passado e futuro se deu na semana da despedida de Zico. Na terça-feira, 6 de fevereiro, cem mil pessoas foram ao Maracanã para aplaudir o atleta Zico pela última vez e assistir a 45 minutos luxuosos dos campeões mundiais contra o estrelado time dos Amigos de Zico, e mais 45 minutos de Zico dando alguma lucidez ao time que deixaria órfão instantes depois. Foi triste, mas foi lindo. Dois dias depois, na quinta-feira, 8 de fevereiro, meia-dúzia de gatos pingados foi ao Maracanã ver o Flamengo se arrastar diante de um esquálido América pela Taça Guanabara, sem Zico para sempre pela primeira vez. Na tentativa de mudar o fúnebre zero a zero, Espinosa promoveu a estreia do centroavante Guga pelo Flamengo, contratado para ser o goleador que faltava desde a saída de Bebeto. Guga se movimentou pelo gramado com se fosse um sapo no asfalto fervente. Foram seus únicos minutos com a camisa do Flamengo. O 0x0 no placar final anunciava um tempo árido pela frente. Foi triste, só triste.

O começo da década foi salvo porque Junior decidiu continuar. Suas atuações no campeonato brasileiro daquele ano fizeram o Jornal dos Sports alcunhá-lo Maestro. Sob sua batuta, regendo a base que conquistou a Copinha de 1990, vencemos a Copa do Brasil daquele ano, o estadual do ano seguinte e o pentacampeonato brasileiro em 1992. Mas ele parou definitivamente no meio de 1993, e começou a década da desesperança que se anunciara no dia 6 de fevereiro de 1990. O ano de 1994 foi de uma ruindade indecente e o de 1995 inaugurou a era dos “flactóides”, como escreveu, se não me falha a memória, o Sidney Garambone no finado FutBrasil, termo autoexplicativo. A contratação de Romário gerou uma justificada euforia, mas nem os mais de 200 gols converteram em títulos relevantes aquela alegria. Sua saída do Flamengo, direto para o Vasco, no final de 1999, haveria de confirmar a década de 1990 como a década da desesperança. O Flamengo parecia sem rumo.

Em parte, estava sem rumo mesmo. O clube Flamengo era desgovernado por Edmundo Santos Silva, que ante a saída de Romário viu na ISL a tábua de salvação e jogou o Flamengo em um atoleiro de dívidas e sucessivos flactóides. A ISL faliu e o Flamengo passaria a primeira metade da primeira década no novo século numa luta feroz para não ser rebaixado. Mas no meio daquele tumulto do clube Flamengo no final de 1999, a entidade Flamengo ressurgiu ao som de um Violino. Sem Romário, o Flamengo estava na semifinal da Copa Mercosul. Sem Romário e sem Beto, afastados no mesmo episódio da noitada do camisa 11. O técnico Carlinhos tinha um punhado de garotos para a missão impossível: passar pelo melhor Peñarol desde o que havia ganho a Libertadores de 1987 com o mítico gol de Diego Aguirre e, se operasse o milagre, encarar o Palmeiras campeão da América e buscando o bi da Mercosul.

Pois o Flamengo deu no Peñarol, deu no Palmeiras e levantou o caneco continental, o primeiro desde a Libertadores de 1981. Devo dizer que poucas vezes eu vi o Flamengo ser tão Flamengo quanto naqueles quatro jogos, e nunca vi ser mais Flamengo do que naqueles quatro jogos. Talvez por ter sido ao apagar das luzes dos anos 1990, talvez porque as falsas esperanças dos anos 2000 tenham virado o período mais turbulento da nossa existência, talvez por ter ficado espremida entre esses períodos históricos, a conquista da Copa Mercosul de 1999 acabou não sendo valorada do modo correto, como aquilo que realmente foi: uma conquista ao velho modo Flamengo de ser. Quando eu me referia àqueles dias, costumava dizer que a Mercosul 99 merecia ter virado livro. Pois virou, e um grande livro. “Deixou Chegar: a Copa Mercosul 1999” é um relato preciso, meticuloso e emocionante trazido à tona por Gustavo Duarte. O feito do eterno Carlinhos e daqueles garotos finalmente tem o reconhecimento que merece.

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Gustavo não abordou apenas a competição continental, mas toda a temporada, dentro e fora de campo, com narrativa, estatísticas, aspas e rememorando o que cantavam as arquibancadas. Para responder a pergunta de como havia nascido o time campeão da Copa Mercosul de 1999, o autor mergulhou nos jogos, nos bastidores e, coisa rara, faz reviver o sentimento da época, o que afirmo eu porque passei os dias da leitura sendo o rubro-negro que eu era em 1999, acumulando angústias até libertá-las às lágrimas quando a bola chapada por Lê morreu mansamente nos cordéis palestrinos. Mas as emoções de “Deixou Chegar” começam bem antes da final da Mercosul. O relato de Gustavo, lance a lance, da final do Estadual que vencemos com o gol de falta de Rodrigo Mendes, me levou de volta para o lugar em que eu estava no alto da arquibancada naquela tarde, no que hoje seria o Leste Superior. Nenhuma das vezes em que revi aquele jogo em vídeo me proporcionou a viagem no tempo que fiz durante a leitura. Obrigado, Rodrigo Mendes; obrigado, Gustavo Duarte.

Passei os dias da leitura sendo o rubro-negro que eu era em 1999. O feito do eterno Carlinhos e daqueles garotos finalmente tem o reconhecimento que merece.

O autor também relembra que o título da Mercosul foi muito mais do que o gol de Lê. A primeira fase caótica, a batalha de Avellaneda, as almas rubro-negras lavadas e vingadas no dilúvio que caiu sobre o Maracanã nos 4×0 contra o Independiente (ainda com Romário); o atropelamento imposto ao Peñarol na ida e a pancadaria na volta no Centenário (ambos os jogos já sem Romário), está tudo em “Deixou Chegar”. Mas a resposta à pergunta sobre como havia nascido aquele time campeão acabou por responder muito mais. Os últimos quatro parágrafos e, soberanamente, o antepenúltimo parágrafo do livro, são uma aula de Flamengo. Uma aula dada por Carlinhos e seus pupilos que culminou com uma conquista tão épica, mas tão épica, que merecia ter sido contada por Nelson Rodrigues, com o céu acima do Parque Antártica tremendo com uma tempestade do Quinto Ato de Rigoletto. E talvez por isso tenha demorado tanto para ter um registro à altura, como este feito agora pelo Gustavo, letras definitivas sobre um time eterno.

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