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O ano era 2002. Clubes cariocas e paulistas, num raro momento de união, decidiram valorizar a disputa do Torneio Rio-São Paulo, legando os respectivos Estaduais a um segundo plano. Na impossibilidade de simplesmente não disputar os Estaduais, os grandes disputaram os torneios com times para lá de “alternativos”, formados por jogadores da base, encostados e jogadores contratados de times pequenos que de outra maneira não vestiriam a camisa de clubes como o Flamengo. O Maracanã praticamente ficou de fora do torneio. Clássicos foram disputados em palcos alternativos como a Rua Bariri, Edson Passos e o Estádio Municipal de Angra dos Reis. Diante deste cenário, o torneio — que foi apelidado pela imprensa de “Caixão”, em referência ao então presidente da Ferj, Eduardo Viana (1938-2006), conhecido como Caixa D’Água — naturalmente não atraiu interesse da televisão e, em grande parte, não foi transmitido, restando aos poucos torcedores interessados em acompanhar suas partidas ouvi-las pelo rádio — quando eram transmitidas.

Dezoito anos depois, o torcedor do Flamengo pode voltar a viver — ou, em muitos casos, experimentar pela primeira vez — a situação de não poder acompanhar pela TV os jogos do time no Campeonato Carioca. Desde o final dos anos 90, com o surgimento da TV a cabo e, depois, do pay per view, gradualmente chegou-se a uma situação em que a totalidade dos jogos do Flamengo estavam disponíveis para serem vistos ao vivo, ainda que somente para quem pagasse quantias cada vez mais vultosas. Ainda assim, costuma haver a opção de ir a um bar ou outro espaço público acompanhar os jogos, para aqueles que fazem questão de vê-los ao vivo e não têm como ir ao estádio, seja pela distância ou outro motivo.

A situação mais próxima vivida recentemente pela torcida aconteceu na Libertadores de 2012, quando foi criada no Brasil a Fox Sports, que assumiu os direitos da Libertadores que já lhe pertenciam no resto da América Latina. No início de suas operações, a Fox viveu uma queda de braço com as empresas de TV por assinatura quanto à sua inclusão nos pacotes disponíveis aos clientes. Com isso, os jogos ficaram inacessíveis a muitos torcedores até que as principais empresas fechassem todas acordo com a Fox. Ainda assim, já desde o início da competição havia ao menos uma operadora que já exibia os jogos, e o torcedor teve como buscar acompanhar o jogo ao vivo. Agora, a situação é diferente.

O contrato de transmissão do Campeonato Carioca se encerrou no ano passado, e, segundo relatos da imprensa, atualmente sequer há tratativas para a assinatura de um novo contrato entre Globo e Flamengo. O clube considera muito baixo o valor de R$ 15 milhões oferecido pela Globo, muito abaixo do que a emissora paga por outras competições. A emissora não pretende elevar o valor, entre outros motivos, porque o contrato assinado com a Ferj, válido até 2024, que representa todos os outros clubes do torneio, inclusive Vasco, Botafogo e Fluminense, prevê que qualquer aumento concedido ao Flamengo seja automaticamente concedido também aos outros três grandes — em 2017, essa cláusula impossibilitou a Globo de pagar ao Flamengo mais do que o clube queria, mas a gestão Eduardo Bandeira de Melo negociou outras compensações, como a veiculação de anúncios do programa Nação Rubro-Negra nos intervalos da Globo e a instalação de iluminação no estádio da Ilha do Urubu. A atual gestão não parece interessada nessas pequenas compensações, e a anunciada opção pela escalação de um time alternativo, com jogadores pouco utilizados em 2019 e outros vindos da base em toda a Taça Guanabara esvaziou ainda mais o interesse da Globo no torneio.

No ano passado, a semifinal da Taça Rio, com 37 pontos no Ibope no Rio de Janeiro, deu mais audiência à Globo do que qualquer jogo do Flamengo no Brasileiro, perdendo somente para jogos da Libertadores e do Mundial. Apesar disso, o Flamengo recebeu só de TV aberta pelo Brasileiro, descontada a premiação de 33 milhões pelo título, mais do que o dobro do que recebeu pelo Carioca. Sem contar o pay per view, com cifras ainda maiores – no Carioca, os R$ 15 milhões são o pagamento total do contrato de TV, restando ainda a possibilidade de receber menos de R$ 4 milhões em premiação total caso o clube vença a competição.

Essses R$ 15 milhões representam menos de 2% das receitas do Flamengo em 2019, estimadas em quase R$ 900 milhões. Porém, são idênticos, por exemplo, ao valor-base que o clube recebe pelo contrato com o BS2, patrocinador master da camisa. Por falar em patrocinadores, não está claro como eles reagirão à grande redução da exposição das suas marcas na principal TV brasileira nos primeiros meses do ano — quando a Globo poderia transmitir só algumas partidas do Flamengo na Libertadores.

Se nenhum acordo for fechado, o Flamengo não poderá exibir os jogos na internet, como fez este ano com grande parcela das partidas do Campeonato Brasileiro, apenas para o exterior. Isto porque a Lei Pelé prevê que os direitos de transmissão pertencem aos dois clubes. No caso do Carioca, os outros clubes são todos representados pela Ferj, e é improvável que a federação chegue a um acordo com o Flamengo para permitir a transmissão das partidas pela internet. Até porque a recusa do Flamengo a assinar com a Globo significará perda de receita para a Ferj e os clubes com o campeonato. Com a presença do Flamengo, a Globo pagará à Ferj R$ 120 milhões anuais até 2024. Sem o clube, esse valor cai para R$ 90 milhões. Por esse motivo, em 2017, os clubes pequenos pressionaram o Flamengo a assinar o contrato com a Globo. Na ocasião, Flamengo e Globo chegaram a um meio termo – assinaram um compromisso por 3 anos, contra os 8 do contrato assinado pela emissora com a Ferj. A expectativa do clube era conseguir um acordo melhor em 2020, mas até o momento, isso não se realizou.

O mesmo motivo impede que o Flamengo venda os contratos para qualquer outra emissora ou plataforma, visto que todos os adversários têm contrato com a Globo.

O Flamengo estreia no dia 18 de janeiro contra o segundo colocado da seletiva já em disputa entre Portuguesa, América, Americano, Macaé, Nova Iguaçu e Friburguense. Os principais jogadores do elenco só voltam de férias no dia 23, um mês após a disputa do Mundial de Clubes, e devem fazer sua estreia na temporada em 16 de fevereiro, na disputa da recém-criada Supercopa do Brasil, na qual enfrentará o Athletico-PR, campeão da Copa do Brasil, em jogo único no Estádio Mané Garrincha.

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