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Já sem transmitir os jogos do Flamengo no Carioca, a relação entre o clube e a Globo ficou ainda mais estremecida com interesse da Amazon

Acostumado a disputar e ganhar os grandes títulos do futebol brasileiro e sul-americano nos últimos meses, o Flamengo começou o ano de 2020 disputando um campeonato de gente grande também nos bastidores, e que nos últimos dias começa a ficar claro para a torcida e o público em geral.

Neste caso, o Flamengo é o troféu, e os adversários são simplesmente a maior empresa de TV do Brasil e atual principal parceira econômica do clube e a Amazon, uma das maiores empresas do mundo, que quer usar o clube para colocar um pé no futebol brasileiro.

O MRN tenta explicar um pouco o xadrez do que está em jogo para o Flamengo e quais são os próximos passos dessa partida que está só começando.

Relação com a Globo

A relação do Flamengo com a Globo se deteriorou rapidamente neste início de 2020. O clube abriu diferentes frentes de litígio com a emissora.

A transmissão dos direitos do Campeonato Carioca é a primeira delas: o Flamengo recusou a oferta da Globo de cerca de R$ 18 milhões por temporada pelos próximos 5 anos, e, segundo diferentes fontes, pediu entre R$ 80 milhões e R$ 100 milhões. Não houve qualquer avanço nas negociações até agora mesmo com o Flamengo chegando à final da Taça Guanabara, os jogos do time na competição não estão sendo transmitidos. Por enquanto, o Flamengo não está ganhando nada pela competição também, mas o clube não incluiu nada referente a isso no orçamento do ano justamente para essa eventualidade. É esperada uma nova investida da Globo para a final do Campeonato Carioca, ou, na ausência dessa, da Taça Rio, mas por enquanto não há sinal de acordo.

O Flamengo alega que investiu no time e merece ser valorizado e que a Globo não remunera os clubes pelas assinaturas do pay per view durante o Carioca. Já a Globo diz que não pretende incentivar “valores diferenciados que acabam resultando em desigualdade preestabelecida”. Sem acordo, os jogos do Flamengo no Carioca deixaram de ser transmitidos pela primeira vez desde 2002. A aposta do Flamengo era de que a Globo sentiria os efeitos na queda de arrecadação com o PPV sem o Flamengo na competição, mas não há notícias de qual foi o efeito até agora.

Uma segunda frente foi aberta nos tribunais. O Flamengo entrou com um processo contra a Globo acusando a empresa de “enriquecer indevidamente às custas do clube” com o descumprimento de cláusulas do contrato para a transmissão do Campeonato Brasileiro, em vigor até 2024. O Flamengo tem quatro reivindicações no processo:

1- que para o cálculo de quanto o clube tem a receber pela transmissão dos seus jogos nas TVs aberta e fechada sejam considerados apenas os jogos exibidos pelo Grupo Globo, e não aqueles exibidos pelo Esporte Interativo;

2- que a Justiça determine um fluxo de pagamentos mensal da parte fixa do contrato, ao contrário do pagamento de uma parcela única ao fim do campeonato;

3- que a Globo volte a a arcar com as despesas de viagens da delegação do Flamengo, como fazia entre 2012 e 2018 e;

4- que o pagamento da porcentagem ao qual o Flamengo tem direito sobre o pay per view seja calculado a partir da receita líquida da Globo com a venda dos pacotes, e não o lucro operacional da emissora com o serviço.

A Globo se manifestou através de nota oficial dizendo que aposta em uma “solução consensual” e garantindo que vem “cumprindo regularmente o contrato” com o Flamengo. Segundo cálculo do UOL, caso o Flamengo obtenha sucesso na ação, pode ter ganhos de até R$ 30 milhões.

Diante desse duplo litígio, o Flamengo divulgou uma nota acusando a emissora de “ter como pano de fundo interesses comerciais não atendidos e que se sobrepõem ao trabalho de informar corretamente aos telespectadores” após o apresentador Faustão criticar no seu programa a atuação dos dirigentes do clube no trato com as famílias de vítimas da tragédia do Ninho do Urubu, que completou um ano em fevereiro. A Globo rebateu acusando o Flamengo de fazer uma ilação “ofensiva” e “sem cabimento”.

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Enquanto isso, em outras frentes, a relação de Flamengo e Globo segue como “business as usual“. As até aqui duas únicas transmissões de jogos do clube pela emissora em 2020 foram os recordes de audiência do futebol no Rio em 2020. No caso da estreia na Libertadores, foi a primeira partida da competição com mais audiência no século. A boa fase do Flamengo faz com que jogadores do clube sejam citados do humorístico “Fora de Hora” ao reality “BBB” – no programa do último domingo, a Globo exibiu no programa a dança do atacante Gabigol em homenagem ao participante Babu no clássico contra o Botafogo, um jogo que a emissora não transmitiu,

Em 2019, a TV foi a maior fatia da receita do Flamengo – R$ 337 milhões de R$ 939 milhões totais, ou 36% do total. Embora tenha crescido em números absolutos, a porcentagem diminuiu, já que no ano anterior a TV representou 44% do bolo total. Nem todo esse dinheiro, é bom ressaltar, vem da Globo — o Flamengo incluiu na rubrica os valores de premiações da Libertadores e do Mundial, que também são garantidos por outras emissoras, como Fox e Facebook, e patrocinadores. Para 2020, o Flamengo estimou receber R$ 283 milhões em verbas de TV, mesmo sem o Carioca.

Onde entra a Amazon?

A empresa do multibilionário Jeff Bezos, considerado atualmente o homem mais rico do mundo, tem um serviço de streaming, o Amazon Prime Video, que decidiu começar a investir em esportes. Desde 2017, a empresa transmite os jogos de quinta-feira à noite da NFL. Ela também produz várias séries sobre time de futebol, inclusive uma sobre a seleção brasileira. A apresentação inicial com o Flamengo se deu no fim do ano passado com o fechamento de uma parceria para um documentário sobre os bastidores da participação do Flamengo no Mundial de Clubes, embora não haja notícia se com o vice-campeonato o produto realmente irá ao ar.

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Jeff Bezos mira sua fortuna para o Flamengo. Foto: Divulgação

Agora, notícias dão conta de que a Amazon fez uma proposta na casa de R$ 38 milhões para ser a patrocinadora master do Flamengo em 2020. O Conselho Deliberativo ainda não foi convocado para aprovar o contrato, mas ele já é dado como certo. E faria parte de uma estratégia maior da Amazon para a entrada no mercado do futebol brasileiro.

Segundo o especialista em marketing esportivo Bruno Maia, os avanços da Amazon são os grandes responsáveis pela tensão entre o Flamengo e a Globo. A gigante multinacional investiu nos últimos meses em profissionais da Globo para a montagem de seu braço esportivo no Brasil.

Teoricamente, uma parceria do Flamengo com a Amazon não significaria necessariamente um rompimento com a Globo, porém. Em 2016, quando assinou o contrato para o Brasileiro entre 2016 e 2020, a então diretoria fez questão de não incluir a venda dos direitos de streaming, como destaca este trecho de uma reportagem da “Época” de abril de 2016: “O contrato também resguarda o clube sobre direitos de streaming. O marketing flamenguista estudou esportes americanos e previu que o futebol brasileiro poderá vender a transmissão de partidas para veículos como Google, Facebook ou Twitter. “Sabemos que as crianças de hoje estão adaptadas ao on demand [sob demanda, como o Netflix]. É uma diferença grande no comportamento do consumidor que impacta no que discutimos agora”, explica José Rodrigo Sabino, vice de marketing do Flamengo, por telefone a ÉPOCA. Não há previsão de valores, nem cláusulas definidas. Só a previsão de que o clube poderá vender esses direitos desde que compartilhe a receita com a Globo e não canibalize TVs aberta, fechada e pay per view.”

A questão legislativa

Aí entra um entrave nos planos de Flamengo e Amazon, porém, que é a questão legislativa. A Lei Pelé prevê que os direitos para exibição de um jogo pertencem aos dois clubes participantes. Isso impede o Flamengo de negociar direitos dos seus jogos no Carioca, ou exibi-los por conta própria, por exemplo, já que a Ferj, representando todos os demais clubes, fechou acordo de exclusividade com a Globo.

Para “se mudar” de mala e cuia da Globo para a Amazon, o Flamengo precisa de e aposta numa mudança na legislação, pela qual os direitos dos jogos passem a ser exclusivos do mandante. Em um relatório enviado a sócios na semana passada, na parte da pasta de Relações Externas, foi listado entre as realizações o “início do processo de revisão da Lei Pelé, com substancial apoio no Congresso e no Senado“. Após a disputa da Supercopa, em Brasília, dirigentes do clube foram recebidos pelo presidente Jair Bolsonaro para discutir mudanças na legislação, e a questão dos direitos de transmissão estaria entre elas. Na ocasião, Bolsonaro disse:

— Trouxeram sugestões de mudanças na legislação pra ajudar o futebol no Brasil. Não vou comentar porque vai gerar pauta e eu não quero pauta na imprensa sobre esse assunto. O ministro respectivo que mais interessa a começar a tratar do assunto estava presente e vai começar a tratar do assunto. Eu perguntei se havia unanimidade entre os clubes de futebol. A princípio, há um entendimento que tem que reformular algumas leis de futebol, só isso. Foi dado o respectivo encaminhamento de como começar a ajudar a reformular o futebol no Brasil, essa que é a ideia. 

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Bolsonaro assiste no Mané Garrincha final da Supercopa entre Fla x Athletico-PR. Foto: Divulgação/Twitter

É claro que uma mudança de legislação funcionaria nas duas frentes: o Flamengo passaria a ser detentor exclusivo dos direitos das partidas das quais é mandante, mas perderia a possibilidade de interferir no destino da transmissão das partidas na qual é visitante. Os efeitos disso ainda são imprevisíveis neste momento. O certo é que o jogo está apenas começando.

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