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Tenho certeza de que essa escolha eu não mudo mais, porque se houver algo maior eu morro antes do apito final

Eu faço listas. Do Flamengo, o tempo todo, como o Rob Fleming de High Fidelity fazia de músicas. Coisas bem específicas e absurdas, como os 5 gols de cabeça mais fodas no Maracanã depois dos 30 do 2º tempo, ou os 5 gols mais bonitos marcados por zagueiros sem ser de cabeça.

Algumas são mais loucas do que essas duas e prefiro nem dizer. Nem todas são top 5, claro. Mas todas passam por uma atualização mental ou revisão histórica e me ajudam a enfrentar esperas em filas, noites de insônia e desencontros diversos. Algumas eu não mudo há muito tempo.

Por exemplo, as 5 melhores narrações de gols no rádio: 1. Pet no tri de 2001, Penido; 2. Nunes em 80, Doalcei; 3. Adílio contra o Vasco em 81, Waldir Amaral; 4. Bebeto contra o Inter em 87, Garotinho; e Andrade nos 6×0 em 81, Curi. Não mexo desde 2001.

Essa lista tem dois critérios: não repetir narrador e a transmissão não pode ter sido off tube, ou seja, tem que ser in loco e não em estúdio. Arquivei mais de mil gols do CRF em narrações de rádio, sendo o mais antigo o de Valido em 1944 e preciosidades com o 1º de Zico em 1971.

Uma das listas acaba de sofrer uma alteração. O jogo mais marcante do Flamengo em cada dia da semana, e na minha lista só vale jogos que eu vivi, no estádio, na TV ou no rádio, de corpo e/ou alma presentes. E eu consigo reviver a emoção de cada um deles.

Fla Pra Valer: É preciso ver o Flamengo jogar

Domingo: Flamengo 3 x 0 Liverpool, 81. É o dia mais concorrido, mas não tem como. A espera pelo jogo, o horário da meia-noite que carregava consigo algo de transformação, e foi a transformação de milhões em campeões do mundo. Dormi de madrugada, quando acabaram as transmissões.

Lembro que quando acordei, criança de 8 anos de idade, o primeiro pensamento foi MEU DEUS, SOU CAMPEÃO DO MUNDO. A família reunida para ver o replay do jogo, que coisa mágica. Passei o domingo todo ouvindo rádio, gravando os gols, chorando de alegria. Arigatô, Flamengo.

Segunda-feira: a negra da final da Liberta de 81. Depois de perder na 6ª para o time feito por Pinochet para ser o orgulho nacional do Chile chumbado, passamos o sábado e o domingo rezando para que o sangue de Adílio e Lico não houvesse sido derramado em vão. Um Flamengo justiceiro.

Terça-feira: Wilstermann 1 x 2 Flamengo, 81. O estádio lotado em Cochabamba vibrou quando o general que presidia a Bolívia desfilou pelo gramado antes do jogo de microfone em punho aos gritos de “Wilstermann, es Bolivia”. Praça de guerra. E vencemos.

Quarta-feira: Atlético 2 x 3 Flamengo. Vitória em noite heroica de Zico, que não dormiu na véspera fazendo tratamento no joelho baleado. Um Mineirão abarrotado em chamas, uma arbitragem descontrolada do doidivanas Dulcídio Wanderley Boschilia, um clima de fim de mundo contra nós.

Os capangas dos Khalil agrediram radialistas do Rio, o staff do Flamengo e chutavam a porta do vestiário durante a preleção. Pedras e fogos atingiam a nossa torcida. O empate era nosso. Vencíamos por 2×0, o primeiro o gol mais foda do Zico de cabeça de toda a carreira.

Mas perdemos muitos gols, Dulcídio inverteu faltas a rodo, o Atlético empatou, e quando parecia que ia virar, Renato Gaúcho arrancou da intermediária como se libertasse suas pernas de correntes seculares e não entrou com a bola porque tinha pressa em xingar o Telê. Noite eterna.

Quinta-feira: Fla 4 x 3 Palmeiras, 1º jogo da final da Mercosul de 99. Todos, menos nós, achavam o Porco HIPER favorito. E eles lideraram no Maracanã em 2×1 e 3×2, mas buscamos numa noite épica dos anti-heróis Caio, Reinaldo e dos Leandros Machado e Ávila.

Sexta-feira: poderia ser o primeiro jogo da final da Liberta de 81, mas na verdade aquela noite terminou no anticlímax com o gol chileno. Meu jogo de 6ª favorito é num palco sagrado europeu, o Giuseppe Meazza. Vencemos a Internazionale de virada na estreia do Mundialito de 1983.

Pouca gente dá valor àquela partida, mas foi a primeira vitória desde que a venda de Zico havia sido oficializada. Adílio com a 10, Junior no meio, Leandro onipresente e ao final os italianos aplaudiram em pé. Depois de dias difíceis, o alívio da sensação de que estávamos vivos.

Sábado: Estava na lista o último jogo oficial de Zico, o Fla 5 x 0 Flu de 1989. Mas agora, e ouso dizer que pelos séculos-e-séculos-amém, o jogo definitivo dos sábados é outro, e suspeito que Vinicius de Moraes reescreveria o monumental “O Dia da Criação” se vivo estivesse.

O jogo maior de todos os sábados é Flamengo 2 x 1 River Plate, ao pé do morro em Lima, e tenho certeza de que essa escolha eu não mudo mais, porque se houver algo maior eu morro antes do apito final e como um bom morto eu só vou descansar e não vou mudar lista nenhuma, RIP.

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