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quinta-feira, novembro 26, 2020

A Lei no Flamengo

— Por que você não matou ele?
 — Eu não botei ele no mundo — Frye respondeu. — Não achei que tinha o direito de tirá-lo dele.
— Mas e o outro que você matou?
— Não matei quando ele estava deitado no chão, ferido.
— Qual a diferença?
— Sr. Danaher, não vê a diferença?

O Mengão começou 2016 de maneira bem razoável, penso eu. Muricy vai aos poucos dando forma ao time titular e já é possível ver que o time tem boa posse de bola. Mas hoje o assunto não é o desempenho do time. Vou falar dos jogadores do Flamengo.

O diálogo que abre este texto está no livro “A Lei em Randado”, do escritor americano Elmore Leonard (recomendo fortemente). É um livro de faroeste, claro, afinal estamos num saloon. O ponto principal do livro é a força de caráter de um jovem xerife, Kirby Frye, desafiado por um rico fazendeiro da cidade. Em nenhum momento o xerife Frye sai da linha do certo e do errado para fazer seu trabalho. Ele sabe que isso tem um preço e paga sem hesitar. Kirby acredita no que faz e é isso o que o move. E onde entram os jogadores do Flamengo nessa história?

Bem, no ano passado muito se falou da falta de comprometimento de muitos jogadores. Exceção feita ao período das seis vitórias seguidas sob o comando do Oswaldo de Oliveira, o resto de campeonato do Flamengo foi ao som das cornetas da torcida. Eu próprio fui um dos integrantes da orquestra. O “Clube da Stellinha” era a representação máxima da falta de vontade, falta de ambição dos rapazes em campo. E isso se deve porque nenhum deles, creio eu, está feliz com sua profissão.

Para o xerife Frye há lutas pelas quais vale a pena morrer.

Digo isto pois não consigo entender como um sujeito que decide ganhar a vida como jogador de futebol precise de motivação para jogar pelo Clube de Regatas do Flamengo. Pois ano passado ocorreram casos de jogadores choramingando pelos cantos, reclamando da “pressão” da torcida. Houve até quem falasse em psicólogo para ajudar os pobres futebolistas. Vejam vocês! O sujeito chega ao máximo da sua profissão, que é jogar na elite do futebol nacional, no time de maior torcida, mundialmente conhecido, é bem pago, recebe em dia e mesmo assim está desmotivado (!!). Nunca me esqueço do horroroso Carlos Eduardo dizendo que “faltou carinho” quando da sua passagem pelo Flamengo. A conclusão que posso tirar desses fatos é só uma: que esse cidadão não está feliz com seu trabalho. Está trabalhando numa profissão que não lhe traz prazer ou paixão.

O que lhes falta é acreditar no que fazem, como o bravo xerife Frye. Entender a diferença entre jogar no Boavista e no Flamengo. “— Sr. Danaher, não vê a diferença?” Em dado momento do livro, ao saber de um linchamento ocorrido na cidade durante sua ausência, o xerife recebe um conselho do seu ajudante. Ele diz para Frye ir dormir. Para não enfrentar os responsáveis pelo linchamento. Para deixar pra amanhã. No que o xerife responde: “Mas ficar sabendo que aconteceu uma coisa dessas, não se volta pra casa e vai dormir.” Entenderam a diferença?

Volto aos jogadores. Como o trabalho não passa de um fardo, um bate-ponto protocolar e tedioso, o sujeito encara tudo o mais como “diversão” e esta é hipervalorizada. Não é sem razão que escutamos relatos e relatos de festas e “pagodes”, sempre regados a muita bebida e mulheres. Festas que reúnem os fracassados em seu companheirismo, do mesmo modo que milhares de infelizes pelo país contam as horas para a chegada da sexta-feira e assim poder se reunir numa mesa de bar para despejar cerveja na goela e apontar o dedo para o mundo e seus culpados.

Creio ser este o retrato dessa geração de jogadores mimados, desmotivados e sem ambição. O 7×1 não foi por acaso. Neymar, o grande símbolo dessa geração, foi convocado pelo ministério público espanhol na condição de réu por “crime de corrupção entre particulares e fraude” envolvendo sua contratação pelo Barcelona. Neymar pode ser inocente, mas essa confusão o torna um craque dos nossos tempos.

A Lei no Flamengo é outra, jovens. Ela está nessas palavras de Zico, nosso Rei: “Nada acontece por acaso e para todas as coisas há um preço. Em qualquer atividade, treinamento e persistência são fundamentais. Além disso, é preciso aprender a desenvolver uma sensibilidade especial para se sentir gratificado pelos resultados invisíveis do dia-a-dia. O jogo, prazer e paixão, responsabilidade e caráter, desafia o ser humano que caminha o tempo todo conosco. As atenções e expectativas estão sobre você, e você tem que corresponder a elas. Tem que querer ganhar — querer com força! —, expor-se, arriscar e jogar pra ganhar. Apostar tudo, entregar-se.” (Zico Conta Sua História, Editora FTD, 1996.) Se Sua majestade me permite o acréscimo, façam tudo com alegria e boa vontade, jovens.

Alegra-te, jovem, na tua mocidade” (Eclesiastes 11:9)

Sérgio Vieira é Mengão, súdito do Rei Zico e consegue ver a diferença.

Gosta de faroeste? Entra lá no meu blog! http://poeiraepedra.blogspot.com

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