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“Quando comecei a voltar ao normal, já era quinta-feira. Conversei com muita gente que me relatou ter sentido o mesmo”

Por Fabiano Tatu. Twitter: @fabianotatu

Passada uma semana daqueles que foram o jogo e a conquista mais marcantes da vida de quase todo rubro-negro – dentre os quais me incluo –, emendando na confirmação do Hepta* (jamais abro mão do meu asterisco. Ele é questão de honra pra mim) enquanto ainda nos encontrávamos (bastante) embriagados pelo triunfo continental, a euforia e todo o furor emocional que tomaram conta da gente começam a dar lugar a uma maior racionalidade, e a partir daí a gente começa a ter um entendimento mais claro, mais realista dos feitos enormes que o Flamengo atingiu. É quando a ficha finalmente cai. Lógico que cada um sente isso à sua própria maneira, mas muitas dessas sensações são compartilhadas por boa parte de nós, tornando nossos dias seguintes um pouco parecidos.

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Pra começo de conversa, pra todo mundo a final começou bem antes do dia 23 de novembro. Pra alguns começou assim que fechamos o baile em cima do Grêmio na semifinal; pra outros, logo que batemos o mesmo Grêmio na casa deles e deixamos o Brasileiro pra lá de bem encaminhado antes de chegar a Lima. Eu tô nesse segundo grupo aí. Fiz como o Mister manda e vivi jogo a jogo em 100%. Mas a semana entre essa partida contra o Grêmio e a final foi de pura agonia. Principalmente depois daquela demonstração absurda, memorável, apoteótica de devoção, de amor e de dedicação de uma torcida ao seu time. Ali fomos mais Nação do que nunca. Quem não conhecia, ficou conhecendo; quem ainda não entendia, entendeu; quem não aceitava, teve que engolir. Dali pra frente, só a final importava.

Sábado foi o dia mais angustiante. Muita gente me disse que só parou de ter dor de barriga, náuseas e tal depois que o jogo começou. Minha filha foi uma. Já eu fiquei arranjando coisas pra fazer em casa e na rua. Continuei tenso, mas pelo menos ajudou a fazer com que o tempo passasse menos devagar. Dos noventa e tantos minutos de jogo é desnecessário falar qualquer coisa. Depois disso, bebedeira, gritaria, consumo de substâncias alternativas, perdição de linha, loucura total. A gente ainda estava comemorando a Liberta, quando chegou a confirmação do Hepta*. Mais festa. A semana começou e meu corpo cobrou a conta. Sentia um esgotamento completo, muito diferente de qualquer outro tipo de cansaço que tenha sentido na minha vida toda até então. Quando comecei a voltar ao normal, já era quinta-feira. Conversei com muita gente que me relatou ter sentido o mesmo. Não era pra menos, convenhamos.

Mas a semana não serviu só pra pagar o preço pelos excessos nas comemorações, não. Ela também foi boa pra começar a cair na real, a perceber de forma mais clara o que a gente conseguiu. E o que a gente conseguiu é imenso, é épico, é monstruoso. Entra fácil pra galeria dos maiores feitos da história do futebol. A final contra o River Plate é um dos momentos mais emblemáticos de sempre. É um daqueles eventos que mostram por que esse é o jogo mais apaixonante da face da Terra. É um privilégio ser protagonista de um negócio desses. Uma honra incomparável, da qual a gente só agora começa a ter uma noção melhor. Vamos falar do que vivemos no dia 23 de novembro de 2019 até o dia da nossa morte. Da mesma forma, vamos ouvir as histórias dos outros irmãos e até descobrir que os cerca de 25 mil rubro-negros presentes em Lima de uma hora pra outra se transformaram em mais de milhão. Vamos bater mais um recorde, dessa vez o estabelecido na Javari, quando Pelé marcou aquele que o próprio considera o gol mais bonito de sua carreira. Se todos os que dizem ter estado no modesto estádio do Juventus da Mooca naquele dia de fato estivessem lá, o público teria sido de mais ou menos 700.000 pessoas. Em alguns anos vamos descobrir que mais de um milhão de rubro-negros viu no Monumental de Lima o Flamengo vencer o River Plate na final de Libertadores mais empolgante de todos os tempos.

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É muito importante que cada um de nós consiga reviver aqueles momentos enquanto eles ainda estão frescos na memória. Porque com o tempo ela, nossa memória, vai nos trair. É inevitável. Detalhes irão se perder, ou serão confundidos de alguma forma. É assim a vida. Por isso não me canso nem me cansarei tão cedo de rever os lances do jogo, as matérias sobre tudo o que cercou aquela partida, os documentários e os depoimentos de quem esteve lá. Nem sequer consigo pensar em Mundial. Ele ainda é algo distante e até menos importante pra mim. Agora há pouco estava novamente assistindo aos gols da final, dessa vez com narrações internacionais. E toda vez que faço isso volto a chorar, a sorrir e a me arrepiar. É uma maneira de sentir ao menos um pouco daquilo que senti na hora em que tudo acontecia. Sei que aquelas sensações foram únicas e que elas jamais vão se repetir com aquele mesmo enredo. Por isso é tão importante a gente se permitir aproveitar ao máximo cada segundo desse momento mágico que estamos vivendo. É preciso curtir tendo sempre em mente que a gente esperou a vida toda por isso. A gente fez nossa parte pra chegar lá, sofreu, jogou e venceu junto, e agora merece viver ao máximo tudo o que está acontecendo, enquanto está acontecendo. Desfrutemos, pois. 

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