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quarta-feira, dezembro 2, 2020

Estrelas e role players

molambo racionalHá não muito tempo, escrevi uma breve opinião sobre o zagueiro Juan, que naquela semana era confirmado como um dos primeiros reforços do rubro-negro para a temporada 2016 – veja aqui. Mais do que palpitar se o experiente zagueiro era ou não o reforço ideal para a combalida defesa molamba, o propósito do texto era provocar uma reflexão nos mais céticos.

Hoje, poucos dias depois da contundente vitória do Flamengo sobre a Portuguesa – relembre aqui, ali e acolá -, o time se prepara para o primeiro grande clássico estadual da temporada. E, naturalmente, parte da torcida (novamente os céticos) faz questão de lembrar que o sucesso diante do maior time carioca-lusitano foi possível graças à fragilidade do time. É de se esperar que a partida diante do Vasco seja mais complicada; por conta da rivalidade, do nível técnico do adversário, pela relevância que eles dão ao jogo, entre outros tantos motivos. Mas, ainda assim, a atuação do Flamengo foi muito boa.

Dominante nas ações ofensivas, com presença constante dos “triângulos laterais” (ora entre Rodinei-Arão-Cirino, ora entre Jorge-Mancuello-Sheik), o time construiu uma goleada como há muito não se via com relativa tranquilidade. Mas… uma breve passagem pós-jogo pelo Twitter e, INCRÍVEL, havia dúzias de críticas ao time. “Jorge está tímido no ataque”, “Wallace não passa segurança”, “Márcio Araújo é muito burocrático”.

Vamos com calma. Em primeiro lugar, há de se diferenciar a “atuação” da “qualidade do elenco”. Didaticamente: o fato de Guerrero ter feito três meses de atuações fracas/discretas não faz dele um jogador ruim. Assim como o Márcio Araújo jogar bem em uma partida, não significa que a torcida o considere o volante ideal para o time – apenas que reconhecem o bom desempenho em um dado momento, embora eu mesmo tenha defendido o contestado meio-campista.

Dito isto, a constatação do cenário é que o torcedor rubro-negro simplesmente PRECISA de personagens para enaltecer e para descontar suas frustrações. E isso leva uma reflexão semelhante àquela que inspirou o texto sobre o zagueiro Juan: é fundamental entender quem é quem nesse elenco para, aí sim, saber o quanto cobrar, o quanto esperar.

A expectativa em torno de um jogador (qualquer um!) costuma ser motivada por 1) salário e 2) capacidade técnica de um atleta. É, natural, portanto, que você espere que o Guerrero renda mais que o Kayke. Acontece que, geralmente, esquecemos de um terceiro fator (tão ou mais importante que os anteriores): o papel tático cumprido pelo atleta.

Técnicos montam times focados nos seus maiores talentos, as estrelas. Jogadas ofensivas são pensadas e construídas por ou para as estrelas. O coordenador ofensivo pode ser o armador, camisa 10, ou o centroavante, capaz de abrir espaços, fazer o pivô. Ou o volante que conduz o ritmo do time entre as áreas, o tal box-to-box.

Quem manda nessa porra sou eu
Quem manda nessa porra sou eu

Há poucos anos, o ataque do Flamengo era coordenado pelas laterais: ora Leo Moura, ora Juan. Isso permitia ter um meio-campo porradeiro e raçudo, já que o talento era escasso naquela época. As chegadas de Adriano e, posteriormente, Ronaldinho Gaúcho, modificaram o sistema, mesmo que, eventualmente, o esquema tático fosse o mesmíssimo 4-4-2.

Só que as estrelas não jogam sozinhas. Elas são assistidas pelos role players, tão conhecidos no basquete como o “elenco de apoio”. Rapidamente: o Olivinha é ótimo reboteiro, grande defensor, a alma do time em diversos momentos; mas na hora que dá merda, é bola na mão do Marquinhos. Nesse exemplo, fica bem claro: Marquinhos é a estrela e Olivinha é o role player. O basquete tem essa cultura de saber quem é quem – e não há constrangimento algum nisso. Caras como o Olivinha, ao invés de darem piti, entendem que eles fazem outras coisas que as estrelas não conseguem fazer tão bem. Coisas que muitas vezes não damos importância, como diminuir o percentual de arremesso dos adversários ou passar a bola na altura certa. E é justamente por isso que eles se tornam imprescindíveis ao time.

maraujo
Tava esperando um Pirlo, molambada?

No futebol, é muito difícil identificar os role players. Em parte porque o esporte é pobre em estatísticas, em parte porque nunca aceitamos que o time não use o máximo de talentos disponíveis em um mesmo onze inicial. É como quando jogávamos Elifoot 98 e apertávamos “M” para escalar os melhores jogadores. Acontece que a vida não é um Elifoot. Ajustes requerem tempo, exigem esforço e muita força de vontade. E é nesse contexto que ninguém se pergunta: será que Canteros, Cuellar ou Ronaldo se dedicam mais que o Márcio Araújo no cumprimento do papel tático? O camisa 8 dá um determinado ritmo à saída de bola, cobre as laterais, desafoga o combate direto dos zagueiros. Ações que Muricy Ramalho espera DAQUELA posição. Canteros é potencialmente melhor que o Márcio Araújo? Sim. Mas será que ele faria exatamente essas coisas E num nível mais alto? Provavelmente não, ao menos por agora. Se o menino Ronaldo é lançado nessa função e, por exemplo, não consegue marcar os adversários no mesmo ritmo, ou vão detonar o moleque ou sugerir que mudem o esquema, de modo a coloca-lo num papel que o deixe confortável.

Cumprir papeis táticos implicam em entender a sua posição, seja como estrela ou role player. Implica em treinar e desenvolver habilidades para assumir tal função sem perder a qualidade de quem você está substituindo. Márcio Araújo não é perfeito, longe disso. E é improvável que, aos 30 anos, siga evoluindo. Provavelmente, quando sair do time, será lembrado como um burocrata. Eu, entretanto, lembrarei dele como um bom role player. O cara que não tem vergonha de assumir um papel simples, por um bem maior.

 

 

@Danisendebo


 

 

Como será 2016?

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2 COMENTÁRIOS

  1. ” E é nesse contexto que ninguém se pergunta: será que Canteros, Cuellar
    ou Ronaldo se dedicam mais que o Márcio Araújo no cumprimento do papel
    tático? O camisa 8 dá um determinado ritmo à saída de bola, cobre as
    laterais, desafoga o combate direto dos zagueiros.”

    Que ritmo Márcio Araújo dá na saída de bola? A maioria de seus passes se dá na intermediária defensiva para os zagueiros ou eventualmente alguém da frente que encoste. Inclusive não é incomum ver Mancuello ou Arão tendo que voltar e fazer a saída de bola. Com a bola no pé Márcio Araújo é muito inferior a Canteros, Ronaldo e Cuellar.

    Quando Márcio Araújo cobre as laterais? Geralmente se vê Jorge no 2 contra 1, Rodinei ao demorar para voltar não tem cobertura como ontem quando Jorge Henrique recebeu sozinho na direita, na cara de Wallace, entre outros vários momentos em que vemos Márcio Araújo derivando no meio campo, mas sempre mal posicionado em relação a jogada e, por isso, sempre correndo atrás do jogador com a bola e raramente em condição de desarmar.

    Aliás, cabe aqui dizer que Canteros mesmo atuando mais adiantado teve média semelhante de desarmes que Márcio Araújo, mesmo começando o ano como 3° homem de meio e depois passando a 2° no ano passado. Numa comparação direta da posição, Cáceres fez uma temporada com média de 4 desarmes por jogo e no ano seguinte MA desfilou sua ridícula média de 2 desarmes.

  2. Daniel, seu texto é muito bom. Como aborda diferentes jogadores, eu vou pegar caso a caso. O zagueiro Juan sempre possuiu elevada capacidade técnica. Como uma qualidade adicional Juan possui rara tranquilidade para um defensor. Todavia, no Flamengo, ele sempre foi cobrado de forma exagerada, a meu ver. Quando subiu da categoria de base para o profissional,muitos reclamavam que ele não reproduzia as mesmas atuações que fazia nos juniores. Isso provavelmente contribuiu para que Juan saísse do Flamengo a um preço muito mais baixo do que poderíamos ter pedido. Azar o nosso…

    Quanto ao Jorge, eu creio que ele passe por algo parecido com o que Samir viveu. Ambos tiveram excelentes atuações, mas, por motivos diversos, incluindo a juventude, normalmente passam por alguma instabilidade. Quando o time vence essas oscilações ficam secundarizadas. Mas as derrotas no Flamengo nos levam direto para o caldeirão do inferno. Taticamente considero o Jorge muito eficiente.

    Falando em tática, Guerrero é um jogador de rara combinação de inteligência coletiva e capacidade de definição. No ano passado eu tive a impressão de que ele jogou machucado, justamente naquele lance em que Serginho puxou o tornozelo dele. Como teve que se apresentar a Seleção Peruana, Guerrero não teve o devido tratamento, e ficou vulnerável até o fim da temporada. Falo isso por que tive lesão no mesmo lugar, e só quando dediquei o devido tempo e tratamento corretos é que me livrei das dores.

    Serginho e Márcio Araújo possuem origens idênticas. Ambos jogaram no Atlético Mineiro. Os dois são odiados até hoje pela torcida do Galo. E aqui em Belo Horizonte sou motivo de chacota por Márcio Araújo jogar no nosso Flamengo. Márcio Araújo é um sujeito de sorte. Joga em times grandes, provavelmente recebe um salário acima de R$70.000,00.

    Não foi só no Galo que a torcida o odiava. Veja o que fizeram os torcedores palmeirenses: ” Márcio Araújo atuou em 35 dos 38 jogos na campanha vencedora do Palmeiras na Série B do Brasileirão, em 2013, todos como titular. Apesar disso, o jogador não era do gosto dos torcedores, que chegaram a criar um site que fazia a contagem regressiva para sua saída ao fim do contrato. Pelo Verdão, foi campeão também da Copa do Brasil de 2012. No total, foram 252 jogos em quatro anos no Palmeiras, com sete gols marcados neste período.” http://globoesporte.globo.com/futebol/times/flamengo/noticia/2014/02/fla-anuncia-contratacao-do-volante-marcio-araujo.html

    Eu entendo que um time de futebol não conta apenas com craques. Existem os carregadores de piano, os que fazem o “serviço sujo”, mas Márcio Araújo não é nada disso. Eu só posso entender que ele seja titular por motivos de sua obediência cega, de sua resiliência, e pelo fato de não proporcionar problemas ao treinador, inclusive se tiver que ser sacado do time. O problema é que ele é titular absoluto, o que considero injusto.

    Concordo que o menino Ronaldo não deve a opção de imediato. Mas os argumentos populares que tiram Canteros do time não se sustentam. Cuellar deverá barrá-lo? Será que a eventual boa atuação contra a Lusa carioca vale mais do que os erros contra o Atlético Mineiro?

    E voltando rapidamente a falar no Juan, o grande problema é que nossa zaga não pode ser ele com Wallace. Precisamos urgentemente de um zagueiro mais jovem, mais rápido, e com melhor qualidade. Caso contrário, todo o trabalho na construção de um time competitivo poderá ir por água a abaixo.

    Grande abraço!

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