Não há mais retorno: vivemos definitivamente numa heptocracia, que será reforçada quando o Flamengo chegar à octocracia e à eneacracia

Por Gustavo de Almeida – Twitter: @gustones

A menos de três dias do Flamengo x River Plate o que vejo pelas ruas, nas casas, esquinas e botequins é o rubro-negrismo tomando conta de tudo.

Na verdade, enganam-se os que pensam ser isto um reflexo da expectativa pela decisão. Não. A decisão já não mais importa e é esta advertência que venho fazer aqui no MRN, este site que só me traz orgulho a cada grande momento Flamengo.

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O que venho advertir, principalmente aos não-ungidos (ou seja, àqueles que por um acaso ou desvio não puderam ser Flamengo), é que não há mais retorno: vivemos definitivamente numa heptocracia, que evidentemente só será reforçada quando chegarmos à octocracia e à eneacracia (não me peçam para definir o regime depois da democracia). 

Em 1989, ano das nossas primeiras eleições diretas para presidente desde a década de 1950 – e após 25 anos de regime – o sociólogo Roberto da Matta deu uma entrevista inesquecível para a Folha de São Paulo fazendo um prognóstico sobre a Seleção Brasileira que disputaria a Copa da Itália ano que vem. Vejam: ali ainda tínhamos a Seleção Brasileira que importava, não isso que vemos agora, comandado por um técnico no mínimo triste (adjetivo que não me renderá processos mas que expressa todo o sentimento). Entre várias declarações fortes, Da Matta afirmava: a conquista da Copa de 1990 trará um período de grande prosperidade para o povo brasileiro. Diante da incerteza do repórter, já que vivíamos um cenário incerto e, como sempre, volátil com as eleições, ele ressaltou que há movimentos do povo brasileiro que independiam de governos ou instituições. 

Sem saber, Da Matta, ao falar de algo transitório (Seleção Brasileira) acabou abordando com maestria algo definitivo (Flamengo). E todos haverão de reparar: não importa o que façam as três instâncias de governo, é um Brasil diferente este que foi tomado pelo Flamengo de Gabriel e Jesus (e não de Gabriel Jesus, ressalte-se). 

Há, neste momento, milhares de crianças que estão preocupando pais não-Flamengos. Imaginem os senhores a reação dos pais do pequeno gremista que recebeu a camisa de Gabigol no sensacional vídeo? Como deter? O que vai acontecer com o nosso sistema a um longo prazo? 

No Ethos Flamengo: Stand by me

Este tipo de preocupação me aflige porque é muito óbvio que em um período de dez ou 15 anos de dominação o número de pessoas que poderemos sacanear tende a diminuir assustadoramente. Só eu já conheço dois casais com filhos entre quatro e seis anos, casais em que ninguém é Flamengo, e que já vislumbram um pequeno rubro-negro já se insurgindo. Há chance de retrocesso? Sempre há. Talvez se os pais gravarem em DVD todos os jogos do Flamengo de 2005, por exemplo.

Quer saber? Nem assim. Mesmo na ruindade o Flamengo exibe uma grandeza espiritual que toca o coração dos novos. Uma vitória fora de casa sobre o Paraná com gol de Obina certamente haverá de nos tirar uma lágrima dos olhos daqui a uns 30 anos, se por este mundo ainda estivermos. Assim como o gol de Lê em 1999 permanece sendo um dos nossos top 50 de todos os tempos e assim por diante. 

Do mesmo jeito que recorri a Da Matta para avaliar as consequências da Heptocracia, recorro agora a Alexis de Tocqueville, autor de “A Democracia na América”, a fim de juntos tentarmos entender o fenômeno e buscar análises do futuro.

Tocqueville, como sabemos, é uma referência até hoje por ter, no século 19, feito uma abordagem das ambiguidades da democracia a partir das revoluções Francesa e Americana. Embora eu prefira as “Reflexões sobre a Revolução na França” de Edmund Burke, reconheço em Tocqueville um pioneirismo ao perceber que a evolução da democracia também poderia, com facilidade, atingir um estágio de despotismo (e ele ainda não se referia ao socialismo, posto que ele morre na época em que Marx estava publicando suas obras – me corrijam, por favor, se não é verdade).

No sentido de que a democracia pode, em nome do desejo da maioria, adotar procedimentos que afrontam as liberdades individuais, Tocqueville deu as bases para o que viria no século 20 na Alemanha, por exemplo. E muito mais: em “Democracia na América” ele simplesmente aponta EUA e Rússia como futuros divisores do mundo em um futuro distante (e vejam bem, ele fala isso na metade do século 19). 

Em sua viagem pelos EUA ele percebeu que a participação dos americanos em partidos e organizações políticas crescia exponencialmente. O francês não pôde deixar de fazer paralelos com sua própria revolução – com a diferença de que a americana era gradual e sem o sangue derramado nas guilhotinas dos jacobinos. Partidos políticos antes dominados pelos donos dos meios de produção eram agora locais onde cada vez mais e mais cidadãos tomavam parte. 

A grande contradição que Tocqueville via era o fato de que para ele a igualdade de condições era fator sine qua non da democracia – mas esta podia levar a um individualismo e a um “isolamento” dos cidadãos com suas famílias. Este comportamento levaria, segundo o francês, ao esquecimento das tradições e à falta de vínculo com o mundo. 

Recorro a Tocqueville para que fiquemos alertas quanto às contradições da Heptocracia: é preciso manter o dualismo, e neste ponto, enquanto o francês aponta, nostradamicamente, EUA x Rússia como divisores políticos do mundo conhecido, eu já vejo que a partir de 2019 o mundo que temos será dividido, quase igualmente, entre Flamengo e todo o resto (inclua-se por favor Real Madrid, Barcelona, “meu Chelsea”, Botafogo, Vasco, Fluminense e times da China e Japão neste “todo o resto”).

O que nos fortalecerá será o mesmo que Tocqueville aponta como antídotos para os venenos homeopáticos gerados pela própria democracia: tradição, tolerância, empatia com o mundo, participação, diálogo, visão do futuro. Neste contexto, a belíssima música inspirada em “Primeiros erros” nos dá o caminho:

“Em dezembro de 81
Botou os ingleses na roda
Três a zero no Liverpool
Ficou marcado na história”

Celebramos aqueles que brilhantemente nos trouxeram até aqui, aqueles que compõem um pouco do que somos, aqueles que criaram as regras do cenário que vivemos. Em seguida, definimos um território-base, o distrito, o espaço onde nossa cultura é gerada antes de conquistar todo o mundo: o Rio.

“E no Rio não tem outro igual
Só Flamengo é campeão mundial”

E, finalmente, o mais belo de todos os versos na minha opinião, aquele cântico no qual nos tornamos, tal e qual em oração, um só (dentro do conceito de “religião” significando “religar”, religar uns aos outros)

“E agora o seu povo/ Pede o mundo de novo”

O Flamengo tem o seu povo, e ele é composto por todas etnias, crenças, cores, sexualidades, preferências políticas e gostos cinematográficos possíveis. Porque é povo que “pede o mundo de novo”, e faz disso há anos uma súplica quase sebastianista e creio eu que foi exatamente esse período de espera e súplica o que nos levou a essa devoção.

O povo que pede o mundo de novo viu finalmente a imagem do barco com o rei voltando, no horizonte, quando vencemos – a meu ver inesperadamente, confesso – o Grêmio no domingo.

Este povo está em festa porque estamos vivendo a heptocracia, estamos comemorando que nos devolveram o que é nosso (o país todo) e agora viveremos sob o reinado dos justos. Que não se deixará cair em tentação por entulhos autoritários ou ideias supostamente emancipadoras mas que trazem em seu bojo uma raiz despótica. É uma democracia parecida com a que viu Alexis de Tocqueville em sua turnê pela América relatada aos franceses: cada vez mais e mais cidadãos ingressando, participando, cobrando, festejando, algo sem paralelo em outro time ou lugar. O francês evidentemente não acompanhou os altos e baixos da democracia americana, suas imperfeições e os pesos e contrapesos das décadas seguintes.

Mas Tocqueville jamais conheceu, com certeza, a heptocracia. Que me parece ser, neste ponto, uma democracia ainda mais plena e cheia de vitalidade do que aquela vista na América. O mundo ficará mais próspero, muitos pensarão que a causa disso é o provável fim da guerra de impostos entre EUA e China, mas não se enganem: a Heptocracia é o que mudará tudo. E ela já está acontecendo.

Mesmo assim, Flamengo, por favor: vença sábado. E sábado, chega logo, senão não paro mais de escrever.

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