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TV de clube é como se fosse um jornalzinho interno da firma, uma revista de sindicato ou uma propaganda governamental

Arthur Muhlenberg – Twitter: @Urublog | Blog Unapitanga

A funesta final da Taça Rio não serviu apenas pra prolongar por mais dois jogos o desnecessário Campeonato Carioca 2020, mais um help aos incansáveis esforços dos responsáveis para que a competição viralize de verdade. A peculiar transmissão da hórrida pelada, fidalgamente oferecida gratuitamente ao povo pela Flu TV, foi também muito educativa para o torcedor ir se acostumando ao caracter parcial das transmissões esportivas clubísticas sob a égide da MP 984.

Pra começar essa conversa, um ponto é inconteste. As transmissões de eventos esportivos feitas pelos clubes têm todo o direito, e por que não dizer, o dever de exercer a parcialidade e o clubismo com toda a convicção até onde os limites da tolerância à auto depreciação involuntária de cada agremiação permitirem.

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As críticas à estas transmissões baseadas na ausência de isenção ou neutralidade se desqualificam por não considerar o meio em que as mensagens se emitem. Tais críticas devem ser reservadas às transmissões feitas por canais comerciais ou estatais que por dever profissional, e respeito ao público consumidor, devem zelar pela neutralidade e pela equidistância na abordagem jornalística dos eventos.

Para quem já tinha assistido à transmissão de Flamengo x Boavista e Flamengo x Volta Redonda a transmissão do Fla-Flu de 8 de julho causou algum desconforto pelo óbvio viés tricolor adotado. O clubismo foi levado às suas últimas consequências, o locutor tricolor não declinou o nome dos jogadores Flamengo nem pra anunciar a escalação das duas equipes, uma informação básica que qualquer torcedor considerava ser seu direito receber.

No jogo propriamente dito o cuidado do locuta em não pronunciar os nomes dos craques rubro-negros foi absoluto. Só deu mole e contrariou a bizarra policy de comunicação aos 18 minutos do primeiro tempo, quando na empolgação da descrição vívida de um lance deixou escapar, sem querer, o nome do Leo Pereira (logo de quem). Uma distinção que o artilheiro Pedro, um liberto do gulag das Laranjeiras, não mereceu ao marcar o gol de empate do Flamengo.

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Foi um momento bem esquisito, mas se usarmos a lógica simples e mononeural que se exige de um torcedor, qual é o sentido pro clube transmitir uma partida de futebol pra ficar gritando o nome dos arrombados que ousam fazer gol no seu time? Quando um clube de futebol faz um canal de TV é pra falar bem de si mesmo e mal dos outros, quando não for possível ignorá-los.

É da natureza dos órgãos de comunicação corporativos. TV de clube é como se fosse um jornalzinho interno da firma, uma revista de sindicato ou uma propaganda governamental. Nesses veículos nem a crítica à própria instituição que banca a porra toda e nem o outro lado, ou seja, eles, o adversário, o inimigo, o competidor, devem ter algum espaço que não seja pra levar porrada.

O problema dessa lógica primitiva, que pode ser muito adequada aos veículos acima citados, adquire uma camada grossa de imbecilidade quando transferida sem qualquer ajuste para o universo esportivo. Primeiro porque o esporte não se pratica sozinho, o adversário é parte fundamental do troço, se tirarmos o adversário da competição o esporte vira treino. Tem algo de patético narrar um jogo de futebol onde o adversário inexiste, além de se estar entregando ao público só metade do produto que se vendeu.

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Por isso são mais que bastante otimistas as previsões de um futuro em que os clubes substituam os meios jornalísticos na cobertura esportiva. São previsões malucas. As pessoas, mesmo aqueles torcedores que babam e gemem e morrem do coração ao ouvir o nome do rival, assistem aos jogos dos seus times pela TV porque querem saber o que está acontecendo na hora em acontecem.

Se assim não fosse esperariam os cavalinhos do Fantástico ou jornal do dia seguinte pra saber o resultado do jogo. Quem tem a missão de informá-lo sobre as coisas e omite fatos ou altera a compreensão dos mesmos dificilmente se estabelecerá no mercado. Porque é certo que alguém na concorrência o fará.

Passada a empolgação inicial pela promulgação isabelina da Lei Áurea do streaming a ficha vai cair. E o público irá se reacomodar ao exercer seu direito de escolha. Nem todo flamenguista vai querer ver os jogos transmitidos pela Fla TV, ou porque prefere ter uma visão menos comprometida com o clube ou porque prefere ouvir comentários táticos mais isentos, as razões podem ser muitas. Os canais tradicionais de mídia, os não ligados aos clubes, sempre terão seu público.

E não tem nenhum problema nisso, mesmo porque a Fla TV, a Flu TV ou a Vasco TV não devem lutar pelo público do futebol, mas sim pelos flamenguistas, tricolores e vascaínos que curtem uma transmissão parcial e não querem ouvir críticas aos seus clubes. Esse papel, bem específico, as TVs dos clubes poderão cumprir com muita eficiência.    

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É salutar que essa opção hoje esteja à disposição dos torcedores. Um segmento do mercado que as TVs, no caso do Brasil a Globo mais especificamente, nunca quiseram ocupar. Tecnologia para diferentes sinais de áudio nas transmissões já existe há um tempão e as emissoras poderiam ter disponibilizado uma trinca de locutor, comentarista e repórter de campo pra cada time dos jogos televisionados sem nenhum drama. O máximo que ofereceram aos torcedores que não querem ouvir a narração oficial foi o som ambiente do estádio. É pouco, o povo queria mais e agora tem.

O problema que foi criado pela adoção da MP vai rolar daqui a cinco anos, quando os jogos do Brasileiro forem exclusividade do clube A ou B, como foi a decisão da Taça Rio. Nesses casos o torcedor não vai ter opção, ou põe no mute e parte pro radinho ou outra fonte de áudio, que provoca ou intensifica o irritante delay entre som e imagem, ou engole o maluco que não fala os nomes dos nossos jogadores e chama nosso time de adversário.

Tem que ver como que se resolve isso, porque sair de um monopólio de suposta neutralidade pra cair em monopólios de escancarada parcialidade não tem nada a ver com liberdade. É escravatura voluntária.

*Créditos da imagem destacada no post e nas redes sociais: Divulgação

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