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O bom filho à casa tornou.

Silva, a bem da verdade, não era cria da Gávea. Era um dos casos menos comuns, de jogadores que se fizeram ídolos do Flamengo quando já contavam com passagens por outros grandes clubes em sua carreira. Mas naqueles meados de anos 60, mesmo em duas passagens relativamente curtas, construiu uma identificação com o clube e com a Nação como poucos – e que manteve, mesmo depois de passar por rivais. Há 50 anos, em 3 de março de 1968, o Maracanã viveu um dia mágico, inesquecível para os rubro-negros presentes: em amistoso, o “Batuta” reestreava em vermelho e preto comandando uma goleada impiedosa sobre um Cruzeiro repleto de craques.

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Paulistano de nascimento e revelado pelo São Paulo (onde foi aluno aplicado do velho mestre rubro-negro Zizinho), Silva rodou pelo interior paulista antes de aportar no Corinthians, onde jogaria entre 1962 e o começo de 1965. No Parque São Jorge, fez ótimas temporadas. Mas o dono da bola naquele tempo era o Santos de Pelé. Após desentendimentos com o técnico Osvaldo Brandão, Silva decidiu tentar a sorte no futebol carioca. Foi sondado pelo Fluminense e esteve bem perto do Botafogo, mas acabou mesmo no Flamengo, clube que tentava encontrar um novo camisa 10 após as saídas de Dida e Gerson, no fim de 1963, e o fracasso de Berico, promessa trazida do Guarani que chegou com cartaz de “novo Pelé”.

Silva era um ponta de lança completo. Além da elegância de seu jogo, simbolizado pela clássica matada no peito, atuava com rara inteligência tanto no meio dos zagueiros quanto fora da área, tinha chute forte (era exímio cobrador de faltas) e um cabeceio preciso. Fazia muitos gols e criava outros tantos. Nas duas primeiras temporadas em que defendeu o Fla, vestindo a 10, fez-se ídolo. Na primeira delas conquistou o Carioca, que deu ao Flamengo o pomposo título de “campeão do IV Centenário da cidade do Rio de Janeiro”. Na segunda, esteve perto do bi, além de ter disputado a Copa de 1966 como jogador do clube.

No fim daquele ano, entretanto, o maior temor da torcida se confirmou: na impossibilidade de comprá-lo em definitivo ao Corinthians (ainda dono de seu passe), o Flamengo viu seu camisa 10 ser negociado com o Barcelona, onde acabou jogando apenas amistosos, em virtude do limite de estrangeiros e do fim do prazo de inscrições. Voltou ao Brasil em meados de 1967, emprestado ao Santos, para atuar ao lado de Pelé, levantando o título paulista. Na virada do ano, ainda emprestado, o Barcelona cogitou vendê-lo. O Bangu de Castor de Andrade apareceu como interessado. Mas a coisa mudou de figura quando o Flamengo surgiu novamente em seu horizonte.

No fim de fevereiro de 1968, numa negociação até hoje nebulosa, o presidente rubro-negro Veiga Brito anunciava o retorno de Silva por empréstimo. Junto com o zagueiro Manicera, da seleção uruguaia, trazido do Nacional de Montevidéu, era, de longe, o reforço de maior peso para um Flamengo em época de vacas bem magras, vivendo a famosa política financeira de “pés no chão” promovida pelo então mandatário. O elenco ainda contava com jogadores que marcaram aquela década no clube, como os laterais Murilo e Paulo Henrique e os meias Carlinhos e Nelsinho. Mas o restante era formado por uma nova safra promovida da base, somada a apostas pescadas em times pequenos.

Do primeiro grupo, destacavam-se os goleiros Marco Aurélio (que logo ganharia o apelido de “Voador”, pelo arrojo nas defesas) e Ubirajara, o ponta-direita Luís Carlos (que mais tarde sairia para o Vasco), o centroavante César (que voltava de uma ótima temporada emprestado ao Palmeiras) e ponta-esquerda Arílson. Do segundo, os reforços “bons e baratos” incluíam o zagueiro Guilherme (Campo Grande), o também zagueiro Onça e o ponteiro Néviton (ambos do futebol baiano), o “curinga” Rodrigues Neto (trazido do Vitória capixaba) e os meias Liminha e Cardosinho (oriundos do interior paulista).

Todos esses atuariam no que seria o jogo da reestreia de Silva pelo Flamengo: um amistoso que valeria como entrega das faixas ao Cruzeiro tricampeão mineiro. Vencedor da Taça Brasil dois anos antes, o time azul contava com uma equipe histórica, das mais fortes do país. O time que entrou em campo no Maracanã naquele 3 de março tinha Raul no gol (mais tarde ídolo e campeão pelo Fla), Pedro Paulo, Vicente, Procópio e Neco na defesa, Zé Carlos e Dirceu Lopes no meio-campo e Natal, Evaldo, Tostão e Hilton no ataque.

O Fla, na época era comandado pelo veterano Aimoré Moreira, que levou o Brasil ao bicampeonato mundial no Chile em 1962. Aimoré, no entanto, estava de licença: também tinha contrato com a CBD para dirigir novamente a Seleção e teve de ir à Europa para observações. Logo sairia da Gávea, deixando em seu lugar o homem que dirigiu o Fla naquele dia, o baiano Válter Miraglia, ex-jogador rubro-negro nos anos 40. O time entrou em campo para enfrentar os mineiros com Marco Aurélio no gol, Marcos, Guilherme, Onça e Paulo Henrique na defesa, Carlinhos e Liminha no meio, Luís Carlos, César, Silva e Néviton na frente.

Naquele domingo ensolarado, era dia de festa no Maracanã, que enfim reabria para a temporada. Com arquibancadas a três cruzeiros novos, o público ultrapassou os 86 mil presentes, incluindo muitas crianças. Com a Charanga tocando furiosamente desde a abertura dos portões, o estádio recebeu com enorme ovação o anúncio de Silva como camisa 10 pelos alto-falantes do estádio. Em campo, o Fla entrou primeiro e fez o tradicional corredor de aplausos para recepcionar o Cruzeiro. Depois veio a entrega das faixas. Foram os únicos momentos de reverência rubro-negra aos grandes craques mineiros.

Quando a bola começou a rolar, só deu Flamengo. Aos 26 minutos, Silva apanhou uma sobra de bola na área, limpou a marcação e soltou um petardo que estufou as redes de Raul. Aos 38, César apareceu no mano a mano com a defesa adversária, avançou e chutou para ampliar. E aos 42, Silva, num foguete em cobrança de falta, anotou mais um. A torcida rubro-negra presente cantava em uníssono o samba de Osvaldo Nunes, “Voltei”, sucesso daquele Carnaval encerrado uma semana antes, que dizia: “Voltei, aqui é meu lugar, minha emoção é grande, a saudade era maior, e voltei para ficar”.

Cansado, mas realizado, Silva não voltou para o segundo tempo, substituído por Almir (que não era o velho parceiro Pernambuquinho, também campeão em 1965). No Fla, também entraram Ubirajara no gol, Rodrigues Neto no lugar de Marcos, Cardosinho no de Carlinhos e Arílson no de Néviton. Mas o show de bola continuou na etapa final. O garoto Luís Carlos marcou dois belos gols aos 10 e aos 20 minutos, antes do cruzeirense Zé Carlos chutar um pênalti no travessão e de Natal descontar enfim para os mineiros, aos 28 minutos. Mas o placar não deixava dúvida de quem tinha dominado as ações: Flamengo 5, Cruzeiro 1.

Na véspera, Silva comentava: “Para ser franco, eu sempre tive a intuição de que mais cedo ou mais tarde eu voltaria. Isso porque me sinto mais confiante e certo de ser ídolo quando estou na equipe do Flamengo. Gosto muito da confiança que a torcida tem em mim e da maneira como me recebe. Foi no Flamengo que atingi a minha melhor forma técnica e foi aqui que fiz muitos amigos. Nunca cheguei a me afastar do Flamengo, mesmo após vendido ao Barcelona”.

Já no intervalo do jogo, nos vestiários do Maracanã, o êxtase já era completo: “Essa torcida me deixa maluco. Quando ela começa a gritar, sou até capaz de morrer em campo”, confessava o Batuta. Saindo do Maracanã de carona com Carlinhos, o camisa 10 rubro-negro reencontrou a torcida, que esperava por ele cantando novamente. O atacante sorria em meio à euforia da massa. Um dia para não se esquecer.

O Flamengo não conquistaria títulos naquele ano, mas voltaria a vencer o Cruzeiro em setembro, pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, desta vez por 1 a 0, encerrando uma invencibilidade de 31 jogos dos mineiros. Dionísio, outro garoto que se firmava naquela temporada, marcou o gol. Silva estava em campo. Ficaria na Gávea apenas até fevereiro do ano seguinte, quando sairia para defender o Racing, da Argentina. Depois jogaria no Vasco e no Botafogo. Mas a identificação com as cores vermelha e preta foi tamanha que o Batuta voltaria mais tarde, primeiro como técnico da base e depois – e ainda hoje – como funcionário do setor social do clube.
 

Imagem destacada no post e redes sociais: Reprodução

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Emmanuel do Valle é jornalista e pesquisador sobre a história do futebol brasileiro e mundial, e entende que a do Flamengo é grandiosa demais para ficar esquecida na estante. Dono do blog Flamengo Alternativo, também colabora com o site Trivela, além de escrever toda sexta no Mundo Rubro Negro.

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