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Mesmo mais rápido, forte e tático, com menos tempo e espaço, o futebol ainda é decidido pelo camisa 10

Blog Resenha Rubro-Negra | Guilherme Araújo – Twitter: @araujolhermegui

Oficialmente o futebol surge na Inglaterra em 1863, mas desde 4.500 ac já existem relatos de jogos semelhantes praticados com bola nos pés. Atravessando milênios a redonda ganhou personalidade, em Copas do Mundo, Olimpíadas e os principais campeonatos espalhados ao redor do planeta.

Não só a estética da bola mudou, mas também das chuteiras que as conduziam, de pretas aos diversos tons de cores e modelos diferentes. As redes deixaram de ser véus de noivas e tornaram-se quase estáticas. O esporte de maior sucesso do mundo divide-se entre saudosismo e atualidade, ressignificando termos como raiz x nutella.

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Contudo a mudança não acontece da noite para o dia, tal qual não cessam nas discussões de bares a cada esquina. Inicialmente o futebol abrange 13 regras básicas e genéricas, transformando-se hoje em 17 que foram alteradas com o passar do tempo, regulamentadas pela IFAB (International Football Association Board).

As principais mudanças foram aquelas que não só definem novas regras, mas que alteraram a forma de jogar, passando por além árbitros, chegando a parte tática dos treinadores e alterando as funções dos jogadores em campo. Foram elas:

  • A regra do impedimento surge 1866, originalmente baseava-se na ideia de que o passe ofensivo fosse legalizado, desde que três adversários estivessem entre quem fosse receber a bola e o gol, alterada em 1925, para dois adversários; Com isso o campo ganha linhas, movimentações e espaçamento definidos, com treinadores instruindo a amplitude para causar problemas as defesas adversárias.
  • Em 1992 determina-se que o recuo intencional ao goleiro não pode mais ser recebido com as mãos; A famosa pressão alta ganha aspectos tático e funcional, forçando o adversário ao erro de passe, obrigando goleiros a aprenderem a jogar com os pés e atacantes a marcarem por zona.
  • 2016 pode ser comparado ao nascimento de cristo para as regras do futebol, surge o tão esperado VAR (Video Assistant Referee), a tecnologia auxilia o árbitro em campo a tomar decisões, define impedimentos em lances de gols e revê lances questionáveis.
  • A mais recente alteração surge na zona de defesa, anteriormente em um tiro de meta o goleiro se posicionava para dar a saída e obrigatoriamente seus companheiros de equipe deveriam estar fora da área, 2020 altera isso e os defensores podem pisar na área no momento da saída; Sendo alternativa aos jogadores de defesa, mas também ampliando o aspecto da pressão alta empregada pelo adversário.

Essas alterações mudaram o jogo em aspectos táticos, os treinadores exploraram novas estratégias a partir disso e o campo, para os jogadores, ficou cada vez menor e mais rápido. Surgem termos como jogo de posição, mobilidade, linhas defensivas, amplitude, pressão pós perda, recomposição defensiva, zona de construção e outros que parecem tão atuais, mas passaram pelas ideias do Brasil de 1970, da Laranja Mecânica de Cruyff, do Barcelona de Guardiola e seguem evoluindo. Todos esses personagens da história do futebol foram responsáveis por dissipar a famosa frase de Jonathan Wilson: “No começo havia o caos e o futebol não tinha forma”.

Em campo jogadores se reeducaram a posições e funções antes inexistentes, a bola passou a circular com mais velocidade e principalmente o meio de campo tornou-se o ponto de equilíbrio para dominar o jogo. Antes divididos entre volantes e camisas 10, agora nomeados meio campistas, armadores ou centrais com a obrigação de atacar e defender quase com a mesma regularidade.

Alguns assíduos meias que jogavam com a 10 passaram a ocupar os lados e outros recuaram para participar da saída de bola, tornando-se os antigos 7 e 8 em posições de origem. Todavia a faixa central de ataque em frente a grande área, nomeada zona 14, e anteriormente preenchida pelos camisas 10 segue sendo a cereja do bolo para os treinadores, ao qual surgem comprovadamente as maiores oportunidades de gols.

O Flamengo em 2020 não é diferente, obtém dois dos melhores meias do continente, Arrascaeta e Everton Ribeiro surpreendem pelos números, mas principalmente pelo que orquestram em campo com seus companheiros. Ambos saem de zonas laterais no setor ofensivo para progressivamente construírem na zona 14 com passes em profundidade, tabelas em pivô, abrindo um corredor para o avanço dos laterais, chutes a média distância e etc. O flamengo se estabelece como um forte meio campo com Gerson e Thiago Maia, mas vê no uruguaio e no camisa 7 as principais fontes de produção ofensiva. Arrascaeta e Everton são diretamente responsáveis por 39,9% dos gols do Flamengo em 2019. Juntos participaram de 24 gols e 35 assistências dos 150 gols marcados.

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Até o surto de covid no elenco, Everton Ribeiro se destacava muito acima da média do mau momento que a equipe vivia, marcando golaços e sendo o desafogo da equipe na fase ofensiva, o que acarretou em uma convocação para a seleção brasileira. Já Arrascaeta assumiu em um momento mais delicado ainda, na ausência dos companheiros habituais em quarentena e com um time olímpico comandou a equipe no empate contra o Palmeiras e na vitória contra o del Valle, agora também convocado pela seleção do Uruguai.

Sem Bruno Henrique e Gabigol o Flamengo encontrou alternativas que se saíram bem, Pedro faz gols a cada partida e Lincoln se reinventou jogando aberto. Quando se viu sem os dois cérebros da equipe, Everton Ribeiro e Arrascaeta, Domènec precisou encontrar soluções para o problema contra Sport, Vasco e Goiás. Para fortalecer o meio campo na fase de construção utilizou Diego, posteriormente uma trinca com Arão, Thiago Maia e Gerson. A equipe oscilou em alguns momentos nas três partidas, dependendo exclusivamente de cruzamentos e movimentações pelos lados, mas finalizou 55 vezes, sendo 21 delas em gol e conquistando a marca média de 2,3 gols por partida.

Com o retorno de Everton Ribeiro e posteriormente de Arrascaeta, que sofreu lesão durante o período de convocação para o Uruguai, a tendência é que o time siga evoluindo. Potencializando não apenas seus números individuais, mas os de seus companheiros de equipe que jogam a frente e os que vem de trás.

Em escala global jogadores como Coutinho, De Bruyne, Marco Reus, Tony Kroos, Thiago Alcântara e outros seguem destilando talento mesmo jogando abertos ou mais recuados, os considerados extintos camisas 10 ainda são o ar saudosista de outros tempos para o futebol atual, dessa vez adaptados a novas dinâmicas do esporte mais amado do mundo. Por fim, mesmo mais rápido, mais forte e tático, o futebol do século XXI com menos tempo e espaço ainda é decidido pelos que levantam a cabeça, tratam a bola com carinho e pensam o jogo.

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*Créditos da imagem destacada no post e nas redes sociais: Alexandre Vidal / Flamengo

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