O Flamengo e o rádio

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O velho Philco Transglobe, nove faixas, me olha da estante. Está mudo há duas décadas, aposentado da tarefa de me trazer o Flamengo todos os dias, jogo após jogo, treino após treino. Lembro-me do dia que meu pai me confiou a tarefa de ser o responsável pelo rádio com o qual havíamos conquistado o terceiro tricampeonato, o primeiro campeonato brasileiro, a Libertadores e o Mundial: – É seu. Pode deixar no seu quarto.

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Meu pai havia comprado outro aparelho, que ficaria na sala. Um Pionner, com toca-discos, toca-fitas e um seletor mundial de rádio que prometia uma experiência mais límpida. Na prática, continuamos com o velho Transglobe. Na plaqueta afixada na parte de trás se lia Solid State. Eu não sabia o que era, mas me parecia algo sério e solene. Eu ainda não sei o que significa. Ainda acho sério e solene.

Mas essa história começa bem antes. Eu contava menos de cinco anos, são as memórias mais antigas que possuo do Flamengo. Tardes de domingo. Meu pai ligava o Transglobe e, com a expressão séria, muito séria, denunciavam-na os bigodes levemente erguidos no canto direito da boca, buscava a sintonia de uma rádio do Rio de Janeiro. Globo. Nacional. Tupi. A que entrasse primeiro.

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Contato mantido, não se mexia mais no rádio até o término do primeiro tempo, quando se tornava mais fácil sintonizar qualquer estação.

Após às 18 horas as emissoras cariocas já chegavam à Serra Catarinense com qualidade de som local. Antes, era preciso a perícia de um cirurgião para pousar o traço seletor no milímetro exato, era preciso encontrar a direção da antena, esticada ao máximo. Para mim, aquilo fazia parte do Flamengo. Era o primeiro passo para o Flamengo chegar à vitória.

– Anoooooootem… Teeeempo e placar no Maioooor do Munnndoooo! O vozeirão de bluesman de Jorge Curi inundava a sala. Eu tinha o impulso de pegar papel e lápis para anotar o tempo e o placar.

– Olha a hooora, dizia Sérgio Morais (“dos Pampas ao Seringais”), anunciava o velho e saudoso Moráles, pai do Sérgio Américo. Irresistíveis as arrancadas de Zico narradas pelo Sérgio Morais: “Avança o Zico…, lá vai ele, vendendo o peixe dele, ainda Zico, aproxima-se da área…”.

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E assim surgiam à minha frente espectros rubro-negros saídos da telinha metálica e furadinha. Curi gritava Zicooo… Zicãaaooo… Zicaaçooo, e eu via um Zico aumentando de tamanho na minha frente até não caber mais na minha sala, no Maracanã, no mundo.

E as horas que separavam o final da transmissão do início dos Gols do Fantásticos, quando finalmente o que se imaginava poderia ser visto, a cores, na Telefunken comprada a prestações? Será que o gol do Zico foi mesmo tão bonito? Sempre era mais bonito, a realidade do futebol Dele punha a imaginação no chinelo.

Não havia a TV a cabo. Futebol na tela era algo raro, celebrado como data de exceção. Não havia YouTube, redes sociais, hashtags. O que havia era o Flamengo que saía pleno em ondas sonoras e depois era debatido na barbearia, no colégio, na rua. É difícil falar aos torcedores que cresceram com Internet e pay-per-view o que era aquele Flamengo contraditório: sem imagem, mas de vivíssimos vermelho e preto.
 

 
O Transglobe concorda com o silêncio a que foi submetido. Sabe que se for acionado, não reproduzirá as vozes de Jorge Curi, Doalcei Camargo, Waldir Amaral, Celso Garcia, Sérgio Morais. Sabe que, como aquele velho craque que não foi esquecido, tem sorte de ainda estar na estante, de ainda receber o olhar de quem dele tanto recebeu.

Estou velho e saudosista. Voltarei ao assunto. O assunto de um Flamengo à beira do realismo fantástico, alimentado por vozes eternas e moldado pela imaginação. Um Flamengo puro, pungente e à flor da pele.

Que saudade do meu Flamengo do rádio.

Um Flamengo Solid State.

 
Mauricio Neves é autor do livro “1981- O primeiro ano do resto de nossas vidas” e escreve no MRN todas as sextas-feiras. Siga-o no Twitter: @flapravaler
 


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