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segunda-feira, janeiro 18, 2021

O sucesso nos tempos de baixo astral

E saiu o Balanço Patrimonial do Flamengo. Como faz tempo que a torcida do Flamengo não comemora um título de verdade, tinha quem dissesse que essa divulgação acontecia sempre no momento exato de desviar a atenção dos resultados tímidos do futebol. Isso não é bem verdade – há um prazo específico para que essa publicação aconteça, último dia útil de abril, por força de lei.

Dessa vez, é verdade, saiu um pouco mais cedo. Só que veio em uma época em que a torcida está beirando a depressão. E aquilo que era para ser boa notícia ou celebrado serviu para trazer mais desgosto – ou até raiva. Afinal, como é que o Flamengo consegue gastar tanto dinheiro e não trazer nada de relevante?

No blog: 2018, o ano da virada

Uns 6 anos atrás eu li e adorei “A Bola Não Entra Por Acaso”. Desde então aqueles conceitos se tornaram um mantra para mim e, suspeito, para a forma de gerir o clube. A ideia central do livro é simples: os ganhos esportivos são consequência direta do modelo de gestão, baseado em profissionalismo, eficiência e bons princípios de governança, exatamente como no mundo corporativo.

O Flamengo de 2017 põe à prova esse axioma: por mais que você faça tudo certo, a bola parece teimar em não entrar. Em 2017 o Flamengo teve a lesão do Diego no 2º jogo em casa da Libertadores, foi eliminado do torneio onde de 9 combinações possíveis de resultados das duas partidas 8 serviam (e com o requinte de que faltando menos de 5 minutos para os jogos acabarem as 2 partidas tinham resultados favoráveis), teve 2 goleiros lesionados em momentos decisivos, o jogador mais caro do elenco caiu no antidoping, perdeu 1 decisão na disputa de pênalti e outra decisão em um pênalti mal marcado. É muita coisa para dar errado em 1 ano só.

O assunto desse artigo, entretanto, não é futebol. É dinheiro. Sim, dinheiro. Eu fiquei um pouco estigmatizado por falar tanto de dinheiro, parece que eu não ligo para futebol, mas não tem problema. Eu virei aquele paizão chato, que se preocupa com as contas do mês e com a luz acesa. Porque, amigos, acreditem em mim: se com dinheiro já não tá bom, sem ele, não tenham a menor dúvida, estaria muito pior.

O Flamengo, imagino que vocês já possam ter lido isso em algum lugar, faturou em 2017 a incrível soma de R$ 648 milhões. Deixa eu colocar isso em perspectiva para vocês. O Grêmio, campeão da Libertadores, faturou R$ 341 milhões – quase a metade. O Palmeiras, rico como ele só, com Crefisa, Allianz Parque e que tais, ficou abaixo de R$ 500 milhões. O Fluminense, que ria da gente até bem pouco tempo atrás, não deve ter chegado aos R$ 250 milhões. O Vasco deve estar por aí também.

Arredondando, o superávit do exercício (não custa nada lembrar, superávit é o resultado das Receitas menos Despesas) foi de espantosos R$ 160 milhões. Só o lucro do Flamengo já é praticamente do tamanho do Botafogo.

Se serve de consolo, não foi por falta de dinheiro que os resultados não vieram – sovinice passou longe da Gávea ano passado. Os gastos totais do Departamento de Futebol (incluindo divisões de base) foram de R$ 351 milhões, entre salários, direitos de imagem, serviços de terceiros, contratações, comissões de agentes, transportes, aluguel de estádios, enfim, tudo junto e misturado.

Permitam-me repetir esse número: 351 FUCKING MILLIONS gastos em 2017 com o Departamento de Futebol, o que dá uma média mensal, me faz até mal fazer essa conta, de quase R$ 30 milhões. Dito de outra forma, o futebol do Flamengo consumiu quase R$ 1 milhão por dia em 2017, vejam vocês.

Se interessa saber, o investimento em direitos econômicos de atletas foi forte: R$ 64,8 milhões, para ser mais direto. Foram R$ 31,7 milhões no Everton Ribeiro, R$ 13,8 milhões no Berrio, R$ 6,8 milhões no Rodolpho, R$ 4 milhões no Renê…

O lado bom dessa análise é que essa graninha era toda do Flamengo! O clube não gastou o que não tinha. Pelo contrário, nos anos recentes passou anos de privação, investindo em Val Pedreiro ou Feijão e juntando um dinheirinho para que em algum momento tivesse pujança financeira. E quando o dinheiro veio trouxe o Geuvânio. E o Rômulo.

Há várias boas notícias financeiras, sejamos justos. No início da gestão Bandeira de Mello alguns de seus opositores diziam que o Flamengo estaria trocando “dívida pública” por “dívida privada” (na verdade, credores públicos por credores privados), ao tomar empréstimos em bancos ao invés de deixar de pagar impostos. Em 2017 a dívida do Flamengo com instituições financeiras se tornou irrisória: R$ 45 milhões (menos de 7% da receita), sendo que toda ela vincenda em 2018, nada no mandato do próximo presidente.

A dívida com impostos, outra dor de cabeça insistente de tempos atrás, está inteiramente equacionada, graças aos efeitos do Profut. Para 2018 a previsão é de um pagamento de cerca de R$ 22 milhões de impostos do passado. Isso o Flamengo paga com um pé nas costas e sem dor.

Ainda tem, claro, alguns esqueletos a lidar. Por exemplo, Marcelo Cirino. Escrevi em um artigo anterior que quando dezembro chegasse a gente ia ter que falar sobre ele. Ainda não está bem claro quanto o Flamengo vai ter que pagar no final das contas. Mas já aparece uma perda de quase R$ 12 milhões pelo não exercício do direito de compra. E há outras chateações, como cobranças de tributos que o clube não reconhece dever – e aparentemente vem sendo bem-sucedido em sua defesa judicial.

O Flamengo finalmente saiu do chamado Ato Trabalhista (o mecanismo de execução de ações trabalhistas que penhorava um percentual de algumas receitas). Saiu, é bom que se diga, pela porta da frente: pagando suas dívidas a ponto dessa modalidade de execução não ser mais necessária.

Bom, o mandato do Presidente Bandeira de Mello chega ao seu último ano. Volta e meia alguém me pergunta por que raios eu ainda insisto em defendê-lo. E para mim a resposta é muito tranquila….no modelo de gestão que eu acredito, o papel de um presidente está longe de comandar o vestiário, dar soco na mesa, ir para a TV falar mal de árbitros, contratar jogadores ou fazer coisas assemelhadas.

O que um presidente realmente deve fazer é capacitar o clube de recursos materiais e financeiros para que o departamento de futebol possa se apresentar nas competições da melhor forma possível. Se a medida da régua for só essa, a gestão do Flamengo é absolutamente revolucionária: pegou um clube absolutamente desacreditado e à beira do abismo para transformá-lo em uma potência.

O que é inexplicável – ou melhor, inaceitável – é que tanto esforço para dar ao Departamento de Futebol as condições materiais que por tantos anos escassearam tenha resultado em quase nada, porque o Flamengo queimou dinheiro como um novo rico em um cassino.

Por que o Flamengo falhou? Amigos, se eu soubesse essa resposta, eu mandava o meu currículo para a Gávea e ficava no lugar do Rodrigo Caetano ou do Fred Luz. Tenho cá as minhas suspeitas – e elas vão no sentido de que o Flamengo dá ouvidos demais a quem não devia – mas isso é tema para outro artigo, ou melhor, para outras pessoas.

Eu só sei que é frustrante ver tanto sucesso financeiro de mãos dadas com resultados esportivos modestíssimos. Ao mesmo tempo, é hora de pensar o futuro: o Flamengo melhorou muito, mas ainda não está nadando em dinheiro, principalmente em um segmento onde as cifras sempre assustam. Daí porque o risco de dobrar a aposta em 2019 é o que mais me apavora, dependendo das escolhas que viermos a fazer.

De resto, termino como comecei: temos sucesso, mas estamos todos tristes. No fundo, eram nossas avós que estavam certas, ao menos no que se refere ao Flamengo. Em 2017 demonstramos uma evidência irrefutável de que, de fato, dinheiro não traz felicidade. E nem manda buscar no exterior.

 
Imagem destacada no post e redes sociais: Divulgação

 

Walter Monteiro é advogado com MBA em Administração. Membro das Comissões de Finanças do Conselho Deliberativo e do Conselho de Administração do Clube de Regatas do Flamengo. Escreve sobre o Flamengo desde 2009, em diferentes espaços.
 


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