Quando os domingos se dividiram

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Aquele não seria um domingo perdido no tempo como todos os outros antes dele, nos meus quase seis anos de vida. Foi o primeiro domingo de uma série sem fim que, ao acordar, meu primeiro pensamento foi: Flamengo. A semana já havia sido diferente, com meu pai me chamando para ouvir os programas esportivos, todos antecipando a angústia do domingo decisivo. Compreendi definitivamente a importância no sábado, quando minha mãe cogitou um passeio em família que meu pai tornou natimorto: – Não, amanhã eu e o Mauricio vamos ouvir o jogo do Flamengo.

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Esta é a primeira história específica do assunto que comecei na última semana: o velho Philco Transglobe, o Flamengo, meu pai e eu.

Fomos almoçar no restaurante Laghos, o melhor da cidade à época. O pianista Onoelson dava um ar solene aos almoços dominicais, enquanto se jogava conversa fora, lentamente. Mas naquele domingo meu pai estava calado. Ao final do almoço, as crianças que estavam no salão seguiam para uma sala ao lado, com sofás gigantescos e televisores sintonizado no Domingo do Parque, do Silvio Santos. Os adultos permaneciam no salão e desfrutavam das cortesias do Laghos: cigarrilhas para as damas, conhaque para os cavalheiros.

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Não naquele domingo. Ao acabar o almoço, meu pai decretou que era hora de ir para casa. Minha mãe achou algo para fazer com minhas irmãs; e meu pai começou o ritual. Vestiu sua surrada camisa rubro-negra, ordenou-me que vestisse a minha. Foi a primeira materialização do “vestiu rubro-negro, não tem para ninguém” da minha vida. Assim, fardados, fomos para a sala de escuta, o local onde o Transglobe alcançava melhor sintonia.

A busca começou no pré-jogo. Nacional, Globo, Tupi. Estática. Vozes ao fundo. Em estações intermediárias alguém rezava, outro se lamentava, às vezes uma canção do Roberto. Nacional, Globo, Tupi. Ruídos. Quase cinco da tarde.
 

 
De repente, a voz de Deni Menezes rompeu a estática: – O Flamengo está escalado, José Carlos! Coutinho quer o título hoje, e vai para cima do Vasco! Nacional, estávamos na Nacional.

Quando a bola rolou, a voz de José Carlos Araújo foi engolida por ruídos. Meu pai recomeça a busca. Globo. Tupi. Nacional. Entre ruídos, ouvimos o primeiro tempo revezando José Carlos Araújo, Jorge Curi, Doalcei Camargo. Sem gols.

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No começo da etapa final, a Globo se mostrou estável, já com a mudança de Curi para Waldir Amaral. O Vasco amarrava o jogo. Raros ataques. Era preciso fazer algo, e só o que podíamos fazer era mudar de estação. Fomos para a Nacional. Talvez a velocidade de José Carlos Araújo fosse útil para furar o bloqueio cruzmaltino. Vai mais, vai mais, vai mais, garotinho. O Vasco bloqueava, o Flamengo voltava a carga, Marcinho entrava em impedimento. Parou, parou, parou… No momento do impedimento, meu pai voltou à Rádio Globo e ouvimos Mário Vianna, com dois ennes, ratificando: – Bãaaanheeeeira!

Trinta e cinco minutos do segundo tempo, vamos para a Tupi. Doalcei Camargo era algo como tirar os volantes, mandar os beques para o ataque, abrir os pontas, o recurso mais ofensivo, mas também o mais perigoso. – Maaaaracanã… (sinal sonoro) São trinta e cinco minutos decorridos na etapa final, o Vasco da Gama vai ficando com título do segundo turno, e credenciando-se a decidir o campeonato com o Flamengo, disse Doalcei.

Meu pai olhava fixamente para o Transglobe. Repousava o queixo sobre os punhos fechados. Respirava fundo. Eu ouvia o jogo e assistia meu pai.

Então tudo aconteceu. O escanteio. O fotógrafo Tchê devia estar entregando a bola ao Zico quando meu pai mexeu levemente na antena, deu um tapinha na minha perna e disse: – É agora.
– Atenção, Rondinelli… Gol!

A explosão da torcida no Maracanã saiu da tela metálica do Transglobe e inundou a sala. Meu pai saiu aos pulos, me ergueu nos braços, e dizia gol, meu filho, gol!, e o grito prolongado de Doalcei e a batucada de trilha e a torcida vibrando e meu pai pulando comigo nos braços, meu Deus, era gol do Flamengo e desde então todos os domingos e todos os gols são uma busca daquele momento, nunca mais os domingos seriam os mesmos, estavam divididos em Antes do Gol do Rondinelli e Depois do Gol do Rondinelli, e eu ainda vejo os olhos brilhantes do meu pai enquanto me dizia seremos campeões, meu filho, seremos campeões.

Aqui está a narração de Doalcei, em um arquivo diferente do que está no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=HvSfe7xS6aA), com a narração desde o lance do escanteio, e eu não posso ouvi-la sem sentir vontade de abraçar o meu pai e o Transglobe que me olha da estante.
 

 
Havia o pós jogo e a tarefa de gravar os gols em K7, de todos os narradores, mas naquela noite inauguramos, pai e filho, uma solenidade que ainda se repete. Hasteamos a bandeira do Flamengo na sacada, para cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro.

Ainda bem que é possível reviver a emoção e, além de Doalcei Camargo, sentir como O Gol foi narrado por Luciano do Valle (https://www.youtube.com/watch?v=xZI3yotmnyM&t=9s), Galvão Bueno (https://www.youtube.com/watch?v=ICRIuG8Jyx0) e José Carlos Araújo (https://www.youtube.com/watch?v=FxRSg14FUcs). E ouvir este gol, mais do que assisti-lo, me traz de volta o primeiro domingo inesquecível, que foi seguido por tantos outros, mas nenhum igual àquele, o d’O Gol, da busca pela sintonia, da alegria incontida de estar nos braços do meu pai enquanto ele dizia gol, meu filho, gol, seremos campeões.

Caramba, pai.

Eu ainda me emociono.

 
Mauricio Neves é autor do livro “1981- O primeiro ano do resto de nossas vidas” e escreve no MRN todas as sextas-feiras. Siga-o no Twitter: @flapravaler
 


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Imagem no post e redes sociais: JOSÉ SABÓIA – (1949) Título: Torcida do Flamengo Técnica: acrílico sobre tela Medidas: 80 x 60 cm Assinatura: canto inferior direito.

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