Corre para a beira do gramado e deixa-se quedar sobre o palco de seu triunfo. É coberto pelos companheiros. É coberto pela torcida.

Por Rodrigo Rötzsch, do blog Preto no Vermelho

Há muito tempo atrás, numa galáxia muito distante, nos primórdios da internet brasileira, existiu um site de futebol chamado Futbrasil, que reuniu torcedores e aspirantes a jornalistas do Brasil inteiro para publicar notícias e opiniões sobre futebol, Foi lá que começou, por exemplo, Leonardo Bertozzi, hoje comentarista dos canais ESPN. Outros de nós seguiram outros caminhos, como eu, que enveredei pelo jornalismo, mas não cheguei a trabalhar longamente no jornalismo esportivo. Em 2001, porém, com 18 anos, eu era um dos colunistas semanais do Futbrasil, e no dia 30 de maio daquele ano publiquei este texto que segue sobre o gol do Pet – não preciso dizer qual – que está completando hoje os mesmos 18 anos que eu tinha na época. Acho que, apesar de escrito por uma pena juvenil, o texto resistu bem ao passar do tempo e foi bem certeiro ao julgar que aquele gol ficaria escrito na eternidade. O Futbrasil, infelizmente, não ficou, e hoje em dia não está mais na internet. Mas para que este texto volte a estar, eu sacudo a poeira aqui do blog Preto no Vermelho e o republico, na íntegra, como foi escrito e publicado há 18 anos. E acrescento: obrigado, Pet, por estes segundos eternos.

Quarta, 30/05/2001

Quarenta e dois minutos do segundo tempo. O Flamengo vence o Vasco por dois a um. Placar insuficiente para ser tricampeão. O tempo se esvai, mas a torcida rubro-negra não sai do estádio. Porque acredita.

Acredita pois aprendeu a crer no possível e no impossível, acredita na mística da camisa, acredita que, mais que ninguém, ela merece aquele título. Acredita porque viu um time com raça, característica que acompanhou o Flamengo em todas suas grandes conquistas, se impor sobre um Vasco de quem se insiste dizer ser superior na qualidade técnica, mas que mais uma vez acovardara-se, apequenara-se ante ao rival. A torcida acredita, enfim, porque é Flamengo. Porque dela nascem os milagres. E sabe que o Flamengo não irá decepcioná-la.

Não podia ter mais razão. A torcida do Flamengo, ritualmente, balança as mãos. Sabe que aquela é a hora.

Quarenta e dois minutos, vê Zagallo em seu relógio. Coça a cabeça, segura a imagem de Santo Antônio de Pádua. Rege a reza das arquibancadas. O comentarista Washington Rodrigues, rubro-negro confesso, tem a visão: “Acaba de chegar no estádio São Judas Tadeu”.

Não podia ter mais razão. A torcida do Flamengo, ritualmente, balança as mãos. Sabe que aquela é a hora. Aquela ou nenhuma outra. Os jogadores também sabem. Edílson, artilheiro do campeonato, autor dos dois gols do jogo, aproxima-se daquele que vai cobrar a falta. “Você está se sentindo bem? Porque se não estiver, toca pra mim que eu entro na área e faço o gol. Se tiver, cobra a falta. Mas decide essa p…”.

O cobrador ouve. Ele está bem. Já simulou esse momento várias vezes, quando no treino seus companheiros diziam: Finja que essa é a última falta no último momento do campeonato. Invariavelmente convertia. Mas agora era a vida e a morte. Era a falta.

Vestia a camisa 10, o cobrador. A mesma camisa que imortalizara Zico nos corações rubro-negros, que antes do Galinho fora de Dida, herói do segundo tri. A mesma camisa que se imortalizara com seus donos, que tinha uma mística própria, a mesma camisa que vestia Rodrigo Mendes ao marcar o gol do título em 1999, o título que em primeiro lugar proporcionara estar em jogo ali um tricampeonato. Vestia, enfim, a mais tradicional camisa do mais tradicional dos clubes do Brasil. E tinha que honrá-la, tinha que imortalizá-la mais uma vez, mais que isso, tinha que imortalizar-se vestindo-a.

Já quarenta e três minutos. O cobrador, Dejan Petkovic, eis seu nome, avança para a bola. Chuta, com seu pé direito. Segundos eternos conduzem a bola ao gol. O goleiro cruzmaltino Hélton se estica, pula, faz o possível. Não é suficiente para conter a cobrança perfeita do camisa 10 da Gávea. Entre a mão de Hélton e o travessão, a bola entra no único espaço possível.

É gol. Gol da camisa 10. Gol de Petkovic. Gol do Flamengo. Gol do tricampeonato.

Foto: Flamengo / Divulgação

A torcida explode. Chora, ajoelha-se, agradece. Do outro lado do Estádio Mário Filho, os vascaínos, que jamais compreenderão o que é Flamengo, que jamais aceitarão a mística de seu manto, observam, assombrados. Boquiabertos. Naqueles segundos eternos, o título muda de dono, o sonho do tri torna-se real, e o tri-vice-campeonato do time da Cruz de Malta, a dura realidade com a qual seus torcedores terão de viver.

A torcida explode. Chora, ajoelha-se, agradece. Do outro lado do Estádio Mário Filho, os vascaínos, que jamais compreenderão o que é Flamengo, que jamais aceitarão a mística de seu manto, observam, assombrados.

O artífice dessa desilusão de um lado, e da explosão de júbilo do outro, ainda não acredita no seu feito. Crê, modestamente, que sua bola bateu no lado de fora da rede. A comoção das arquibancadas, uníssona àquela de 35 milhões de torcedores, o traz à doce realidade. A bola tocara a rede, mas do lado de dentro. Ele a podia ver, descansando atrás da linha da meta de Hélton.

É a vez do craque explodir em júbilo. Corre para a beira do gramado e deixa-se quedar sobre o palco de seu triunfo. É coberto pelos companheiros, que celebram o feito do novo imortal rubro-negro. É coberto pela torcida, que para sempre guardará o feito de Pet, carinhoso apelido que não espelha a grandeza de seu gol, na memória e no coração.

Quarenta e quatro minutos. O placar marca, Vasco 1, Flamengo 3. Zagallo beija o santo, vê que a fé compensa. Petkovic ergue-se do gramado. A torcida vascaína deixa o estádio, o jogo se reinicia. Cinco minutos depois, nova explosão. Fim do jogo, Flamengo tricampeão. Nada mais importa agora. A cidade pode vestir-se de vermelho e preto e celebrar seu novo rei. E tanto ele quanto ela irão ser capazes para sempre de recordar-se dos segundos eternos de Dejan Petkovic, os segundos eternos do Flamengo.