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sábado, janeiro 16, 2021

Téo Benjamin: ainda sobre pênaltis perdidos (e também lances livres)

Téo Ferraz Benjamin
Escrevo as análises táticas do MRN porque futebol se estuda sim! De vez em quando peço licença para escrever sobre outros assuntos também.

Vamos relembrar alguns casos de penais perdidos e até o estilo vovó de arremessar lances livres de Rick Barry

O que você faria se estivesse frente a frente com o maior pegador de pênaltis do mundo pela segunda vez no mesmo jogo, sendo que ele defendeu seu primeiro chute?

Esse foi o dilema de Raí aos 47 do segundo tempo naquela semi-final do Brasileiro de 99. Corinthians 3×2 São Paulo.

Escrevi um texto longo sobre a psicologia dos pênaltis motivado pelo pênalti do Diego contra o CAP. Tive que cortar muita coisa porque ficou grande demais. Como a galera gostou, faço esse separado focando num outro fator importante: a entrevista de Diego após o jogo.

Diego disse depois do jogo que bateu com segurança, se defendeu afirmando que não fez uma cavadinha e lembrou de outros pênaltis que converteu. Tudo verdade, mas muitos rubro-negros acharam que faltou humildade.

Voltando a Raí em 1999…

Leia do mesmo autor: Desfrutem um Flamengo que dá prazer

No primeiro pênalti, Dida olhou para PC Gusmão atrás do gol e o preparador de goleiros só apontou o lado preferido de Raí. O gigante pegou.

No segundo, Raí decidiu mudar o canto, deu uma porrada, mas Dida voou de novo para segurar em dois tempos.

Dida era um monstro. Uma máquina de pegar pênaltis na virada do século. Chegou a defender seis em dez meses no Corinthians, sendo QUATRO SEGUIDOS!

A vida do cobrador não é tão fácil quanto parece

Que o diga Martín Palermo, grande centroavante argentino que ficou mais famoso por perder três pênaltis no mesmo jogo do que pelos seis Campeonatos Argentinos e duas Libertadores no currículo.

Petkovic também encarou dilema parecido na arrancada para o título brasileiro de 2009. Rogério Ceni não era um Dida, mas defendeu o pênalti do sérvio que colocaria o Flamengo na vice-liderança do campeonato, à frente do São Paulo.

O juiz mandou voltar.

Everton Silva então chamou o gringo na xinxa: “Pai, você é nosso ídolo. Um pênalti não vai tirar isso de você. Foda-se o pênalti”.

Ele fez o segundo com uma linda cavadinha.

Dois anos depois, um outro lance que todo rubro-negro vai lembrar: Elano bateu de cavadinha, Felipe amaciou e saiu fazendo embaixadinhas.

O jogo foi 5×4, teve gol-Puskas do Neymar, falta por baixo da barreira do Ronaldinho, gol perdido do Deivid, mas esse lance é demais!

O que poucos lembram é o seguinte… No ano anterior Neymar era o cobrador do Santos, mas desperdiçou muitas cobranças e ainda teve aquela briga com Dorival (no jogo que o Renê Simões disse que estávamos criando um monstro).

Elano então virou o cobrador oficial.

Mas ele ISOLOU um pênalti contra o Noroeste no Campeonato Paulista e meses depois ISOLOU MUITO PIOR contra o Paraguai na Copa América.

Dez dias depois, o Santos enfrentava o Flamengo na Vila. Abriu 3×0, deixou o Fla encostar num 3×2 e… pênalti.

Felipe, que era um GRANDE adepto de escolher o canto, sabia que Elano tentaria a cobrança mais segura possível. Mérito do goleiro, desespero do camisa 8.

Esse lance mudou o ritmo do segundo tempo e deu o gás que o Flamengo precisava para a virada.

Aí fica a pergunta: o que Elano deveria ter feito?

Perder daquele jeito foi mil vezes mais ridículo do que se fosse uma cobrança “normal” no canto e defesa do goleiro. Por outro lado, ele calculou que aquela era a cobrança com a maior chance de acerto.

Mas o que você deixa de fazer por medo de parecer ridículo?

Rick Barry e o estilo vovó

Você sabe quem foi Rick Barry?

Um jogador de basquete americano. Foi um dos maiores arremessadores de lances livres do seu tempo. Até hoje, tem a sétima melhor marca da NBA, com 89,3% de acerto na carreira.

Mas Barry tinha uma peculiaridade: ele arremessava por baixo.

Sim! Colocava a bola entre os joelhos, flexionava as pernas relaxava os braços e jogava ela pra cima!!

É o “granny-style” ou “estilo vovó”! Ele jura que é melhor!

Eu sei que você não está acreditando, mas é verdade!

E você sabe quem foi Wilt Chamberlain? Um outro jogador de basquete fantástico, Hall of Fame e tudo. Um dos melhores de sua época. Só tinha um problema: ele era HORRÍVEL nos lances livres!

Seu aproveitamento na carreira foi de 51.1%, abaixo de Shaquille O’Neal!!!

Mas um belo dia Chamberlain resolveu arremessar por baixo, no “estilo vovó”. O que aconteceu? Seu aproveitamento subiu de 50% para 61% de uma hora pra outra!

Arremessando assim, ele fez 100 PONTOS EM UM JOGO, que até hoje é o recorde, acertando 28 de 32 lances livres nesse jogo.

Mas Wilt Chamberlain voltou a arremessar por cima porque não aguentou a zoação no mundo do basquete. Seu aproveitamento caiu.

Rick Barry passou o resto da vida tentando convencer outros a usarem a técnica. Ninguém foi. O próprio Shaq disse que prefere errar do que parecer uma vovó.

Um passadinha por Guardiola

O primeiro jogo oficial do catalão pelo Bayern foi a Supercopa da Alemanha, que foi para os pênaltis. Ele reúne os jogadores e diz “eu não sei bater pênaltis, mas aqui está o melhor batedor do mundo” e aponta para seu auxiliar.

Leia: Pep Guardiola: A evolução

Manel Estiarte foi um dos melhores do mundo no Polo Aquático e um exímio cobrador de tiros livres. Ele continua: “Com Manel aprendi duas coisas. A primeira: decidam agora onde vão bater e não mudem nunca mais. A segunda: repitam mil vezes na cabeça ‘gol gol gol gol gol gol.'”

O título valia pouco, é verdade, mas é com essa mentalidade que os jogadores foram para a marca do cal. Todos fizeram seus gols e o Bayern venceu.

Agora, finalmente, voltamos a Diego

O capitão do Flamengo passa por altos e baixos nos últimos anos, mas parece não entender que a cada frustração a ansiedade da torcida vai aumentando. Cada derrota não está sozinha, ela vem assombrada pelas anteriores.

Diego tem um aproveitamento ruim nos pênaltis. Quando ele pede para cobrar, decide ser o primeiro e toma as decisões erradas que detalhei no outro fio, ele assume um risco grande demais. Provavelmente grande demais para qualquer jogador, principalmente para ele.

Se a torcida do Flamengo está frustrada e ansiosa, é fácil personificar isso nele. Diego tem personalidade. Não foge da raia. Isso é uma grande virtude! Mas também pode ser um tiro no pé.

Acho que deveria ter cobrado, mas não o primeiro e não daquele jeito.

Quando a galera culpa Diego pela derrota, é mais do que pênalti, mais do que essa derrota ou essa eliminação.

Como já disse um grande filósofo rubro-negro: foda-se o pênalti.

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