Téo Benjamin: um Flamengo que não abdica da sua forma de jogo

Téo Ferraz Benjamin
Escrevo as análises táticas do MRN porque futebol se estuda sim! De vez em quando peço licença para escrever sobre outros assuntos também.

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Durante a final do Mundial, o Flamengo de Jorge Jesus mostrou que, em hipótese nenhuma, tende a abdicar da sua maneira de jogar.

“Não abriremos mão do nosso jeito de jogar!”

A gente ouve isso toda hora, mas será que é verdade?

Alguns jogos apresentam, antes de mais nada, uma escolha filosófica para o Clube e o treinador. Liverpool x Flamengo foi um deles.

O campeão da Eslováquia, por exemplo, passa o ano todo amassando os adversários – e treinando para isso.

De repente, chega na Champions League e precisa enfrentar Barcelonas e Manchesters. O que fazer? Manter o jogo propositivo que o time está acostumado ou se limitar a defender?

Flamengo x Liverpool

Guardadas as devidas proporções, essa era a situação de Jorge Jesus naquele 21/12/2019. Sul-americanos e europeus se enfrentam pouquíssimo, então ninguém sabia realmente qual era o tamanho do buraco que dividia os melhores times dos dois continentes.

O Mister, de fato, optou por manter o jeito de jogar, tentar disputar o controle da bola e atacar o poderosíssimo Liverpool. Verdade seja dita: independente da discussão distorcida sobre o “igual pra igual”, o Fla entrou em campo para jogar bola.

O Mister, de fato, optou por manter o jeito de jogar, tentar disputar o controle da bola e atacar o poderosíssimo Liverpool. Verdade seja dita: independente da discussão distorcida sobre o “igual pra igual”, o Fla entrou em campo para jogar bola.

Leia também – Téo Benjamin: O Flamengo não pode abrir mão do seu motor

A primeira grande dúvida era como o Fla lidaria com a marcação-pressão de Klopp. O rubro-negro deu aula saindo de trás nos meses anteriores, mas a pressão dos times brasileiros costuma ser desorganizada e pouco intensa. Em contrapartida, os ingleses são os melhores do mundo nesse quesito.

O Fla não tinha a menor pressa para sair, não se afobava e, quando a pressão subia, os defensores conseguiam achar boas formas de evitá-la. Talvez tenha sido o grande mérito do time. Diego Alves e os laterais foram fundamentais para que o jogo funcionasse.

Do outro lado do campo, o Flamengo também tentava impor a sua pressão e nos primeiros minutos até teve bastante sucesso, sufocando a saída do Liverpool com muita gente e forçando chutões aleatórios.

O problema é que os jogadores do time inglês lançam bem demais. Muito bem mesmo! Então qualquer brecha deixada no meio-campo gerava dificuldades imediatas para a defesa rubro-negra.

JJ precisou recuar um pouco e deixar o Fla mais compacto para não deixar brecha para esses lançamentos.

Com isso, os defensores ingleses tinham mais espaço e mostraram que também são incríveis na bola longa, organizando o ataque com muita eficiência.

Mantendo uma forma de jogar

O Fla acabou ficando entre a cruz e a espada. Ora deixava brechas se subisse para pressionar, ora deixava (outras) brechas se recuasse um pouco. É o preço de jogar contra um adversário fantástico contra o Liverpool de Jürgen Klopp. Cada detalhe faz diferença.

Mesmo assim, o Flamengo foi colocando a bola no chão e acalmando o jogo. Não entrou na armadilha de Klopp e foi rondando a área. Não conseguia criar grandes chances, pois o Liverpool defende MUITO bem a própria área, mas o time chegava…

As melhores escapadas eram com Bruno Henrique, então Jorge Jesus resolveu investir nisso. No início do segundo tempo mudou para uma espécie de 4-4-2 torto, com BH bem aberto na esquerda, Filipe Luís avançando mais por dentro e Arrascaeta mais solto.

A partir dos 15 min do segundo tempo, o jogo desenvolveu um padrão bem claro: o Flamengo forçava tudo que podia pela esquerda enquanto Liverpool tentava esticar a bola nas costas da defesa rubro-negra imediatamente após recuperá-la.

Vitinho entrou aos 31 e Diego aos 35 min. O Flamengo passou a usar dois pontas pelo lado esquerdo, buscando gerar uma sobrecarga brutal por ali, com Vitinho e BH em cima de Alexander-Arnold.

Era o all-in de Jorge Jesus. Ele viu uma possibilidade e apostou todas as fichas.

A jogada era uma só: lançamento longo na direção de Bruno Henrique e Vitinho. Disputa pelo alto buscando ganhar a segunda para disparar em cima da defesa inglesa desprotegida. Uma jogada ensaiada e repetida insistentemente durante 15 minutos.

Não deu certo. O Fla não conseguiu pegar a bola limpa para acelerar em cima dos zagueiros, mas também os cortes da defesa ainda geraram os contra-ataques que quase mataram o jogo a favor dos Reds. Quando se enfrenta times tão bons, a margem é muito pequena.

As substituições deram certo? Não. Foram erradas? É fácil falar depois que já acabou, mas temos que nos colocar no lugar do Mister naquele momento. Ele fez uma aposta. Se desse certo – e poderia ter dado – todo mundo chamaria de gênio.

Saindo um pouco da análise e entrando na opinião, acho que a jogada poderia dar certo, mas, para tentá-la, o Fla teve que abrir mão da posse de bola, sua principal arma no jogo até ali. A escolha foi por assumir riscos, mas o risco pode ter sido grande demais.

De fato, é inusitado ver um treinador apostar em uma única via de repente.

O time desistiu da jogadinha na prorrogação. Voltou a colocar a bola no chão e tentar subir aos poucos, envolvendo o Liverpool, mas o poder de criação já não era o mesmo sem Everton e Arrascaeta.

Piris recebeu instruções e estava na beira do campo para entrar. Provavelmente mudaria a estrutura do meio-campo, passando para um 4-3-3 ou 4-2-3-1, com Vitinho de um lado e BH do outro.

Mas não deu tempo. O gol saiu exatamente nesse momento.

É impossível prever o que aconteceria com a entrada de Piris, mas a jogada do gol sai exatamente por dentro, nas costas dos volantes, quando Filipe Luís sobe até o fundo e Marí tem que sair para cobrí-lo. Por um detalhe Rodrigo Caio não alcançou e o ataque foi muito feliz.

Jorge Jesus foi forçado a mudar a substituição. Lincoln entrou no lugar do Gerson e o Flamengo se manteve organizado, mas era muito difícil reagir. O Liverpool conseguiu frear o ímpeto. Mesmo assim, a última chance ainda veio. Faltou um detalhe.

Ninguém fica feliz de perder. O rubro-negro deve almejar vencer até mesmo o time mais poderoso do mundo, mas a verdade é que Jorge Jesus foi muito corajoso em suas escolhas e, no geral, o time fez um ótimo jogo.

Quem sabe da próxima vez os detalhes não influenciem pro lado de cá.

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