Compartilhar:

Lucas Tinôco, do MRN Informação

Um torcedor do Flamengo contou, a um site corintiano, como foi torcer para o rubro-negro durante reestruturação financeira.

Que a história recente do Flamengo, desde a reestruturação até o vitorioso ano de 2019 merece ser contada, disso não há dúvidas. Contudo, o que aconteceu com o rubro-negro Marcus Castro foi um tanto diferente.

Advogado da união e professor de Direito Administrativo, Marcus recebeu o contato de um site destinado a informar sobre um rival do Flamengo. O “Corinthians 247” quis saber dele: como foi torcer para o Flamengo nos últimos anos e quanto isso pode ensinar o Corinthians?

– Bom, com as redes sociais ficamos todos mais próximos no sentido da facilidade de contato. Mas ao mesmo tempo mais separados, porque acabamos seguindo aqueles que torcem pro mesmo time ou pensam como a gente. Achei bastante digna a ideia deles de convidar um torcedor do Flamengo para escrever em um site dedicado ao Corinthians. Me senti honrado!, afirmou.

O clube paulista vive um período conturbado economicamente, com dívidas altas e, consequentemente, poucas possibilidades para investimentos. Mesmo após anos gloriosos, más gestões quebraram os cofres corintianos.

Jesus nega acerto com Benfica e afirma: “Minha vontade é continuar no Flamengo”

Marcus, então, relatou como uma criança nascida nos anos 70, que viveu a era Zico e Júnior, passou por longos jejuns e perseverou durante 7 anos de reestruturação para ver o seu time do coração voltar aos grandes títulos e tomar para si o posto de maior clube do país, seja econômica e estruturalmente, seja dentro das quatro linhas.

– É preciso entender que o Flamengo 2019 caiu como uma avalanche na cabeça dos outros clubes. Os mais atentos sabiam que o clube estava em processo de melhora. Mas muitos ainda associavam o clube a uma entidade caloteira e perdedora. Aí vem o Flamengo e faz o que faz, de maneira sustentável e com continuidade… isso gera uma perplexidade e uma necessidade de entender o que está acontecendo. Acho que há um aumento de interesse no clube (e suas práticas). E um aumento de teorias infundadas sobre tudo. É aí que a informação entra!, disse Marcus sobre a importância de contar a respeito da reestruturação financeira do Mais Querido.

Leia o texto de Marcus Castro publicado no Corinthians 247:

Antes de tudo, gostaria de agradecer ao Corinthians 247 pelo gentil convite que me foi feito, e sobre o qual vocês vão saber mais logo logo. Mas antes, vou me apresentar: meu nome é Marcus Castro, sou professor de Direito Administrativo e… flamenguista. Com muito orgulho.

Mas o que eu estou fazendo aqui então? Explico: fui convidado para contar um pouco de como foi vivenciar, na pele de um torcedor, todo o processo de reestruturação pelo qual passou o Flamengo nos últimos anos, que culminou no que estamos vendo o clube viver desde o ano passado. Não é um tema simples, tem muitas variáveis, mas creio que é algo muito aplicável à situação do Corinthians atual. Como? É o que vou tentar mostrar.

CRESCENDO EM MEIO A TROFÉUS

Antes, porém, quero falar um pouco de mim. Eu sou de 1974. Era criança pequena, quando o Flamengo viveu quatro temporadas seguidas de glória, entre 1980 e 1983. Com minha cabeça infantil, achava que aquela era a ordem natural das coisas – o Flamengo quase sempre vencendo. Fui entrando na adolescência e, apesar do brilho daqueles anos não ter se repetido, vivenciei muito de perto (já frequentando estádios) os títulos nacionais de 1987, 1990 (Copa do Brasil) e 1992. Três taças nacionais em seis temporadas… nada mal né. Algo compatível com aquela visão de clube que eu tinha. E muito próxima da “década de ouro” que vocês, corinthianos, viveram depois de voltarem da Série B.

Mas, voltando. O fato é que, durante pouco mais de uma década, vi meu time empilhar todos os títulos que eram disputados à época. Seis títulos nacionais, uma Libertadores, um Mundial. Vivi ali o auge da carreira de muitos nomes que eram referência, inclusive mundial, e que jogavam aqui: de Zico a Júnior, passando por Renato, Bebeto, Leandro, etc. Na minha cabeça de torcedor, aquela situação era o normal. Um título grande a cada dois anos.

Eu me lembro da saída do Maracanã, em 1992, após a conquista do Brasileiro. E se alguém viesse do futuro e me contasse como seriam os meus próximos 25 anos, futebolisticamente falando, eu não acreditaria.

OS ANOS DE CRISE

Afinal, nos 25 anos seguintes, entre 1993 e 2018, o que aconteceu com aquela força da natureza, que ganhava muito e com frequência? Levou um Brasileiro, o de 2009. Ganhou duas Copas do Brasil. Uma Copa dos Campeões, que foi muito legal à época, mas que nem existe mais. Uma Mercosul dentro do Palestra, ok. E brigamos, em uns cinco anos, de maneira angustiante e desesperada contra o rebaixamento. Que nunca veio, mas foi quase.

Vejam, 25 anos representam uma vida inteira de torcedor. Os torcedores do Flamengo com 40 anos ou menos tem basicamente essas memórias do time, apenas: títulos esporádicos, algumas vitórias grandes, e muito sofrimento. Um evidente apequenamento do clube, que ia migrando para uma parte média da tabela com cada vez mais naturalidade e frequência.
Mas o que causou esse apequenamento? Um conjunto de fatores que juntos, levam ao desastre. Crises financeiras quase que constantes. Atraso de salário. Atraso absoluto na estrutura. Constantes erros de planejamento que, de vez em quando, eram reduzidos por uma ou outra fase boa ou menos ruim. Empilhamos um monte de campeonatos estaduais, sim, que até alegraram, mas ajudaram a encobrir uma constatação óbvia: o clube estava ficando para trás.

Enquanto isso, outros times começaram a vencer os campeonatos que eu me habituei a ver nas mãos do meu time. Primeiro, o São Paulo de Telê. Depois, o Palmeiras da Parmalat. E, claro, as múltiplas gerações corinthianas. E com isso, o Flamengo perdia seu protagonismo. Começou a ficar atrás em históricos de confrontos diretos. Começou a passar por jejuns que não passava. Começou a perder finais que não perdia. É um processo, percebem? Uma coisa leva à outra, como em um ciclo vicioso.
E esse ciclo vai se apresentando aos poucos, às vezes de um jeito tão sutil que o torcedor não percebe. Querem um exemplo? A temporada de 1993 do Flamengo. Foi regular, até. Mata-mata da Libertadores e do Brasileiro, final da Supercopa. Não passou vergonha. Mas hoje, vejo com clareza: a gente já começava a decair. Um clube não se destrói da noite para o dia; um caso como o do Cruzeiro, que implode em seis meses, é raríssimo! Normalmente, trata-se de um processo, que vai corroendo o clube, por anos a fio, aos olhos do torcedor.

No começo, você perde uma final para o Grêmio do Felipão em casa. Depois, perde outra para o Santos do Luxa em casa. Aí, numa jornada infeliz, acaba tomando uma goleada prum Paraná da vida. Aos poucos, as coisas começam a acontecer com mais e mais frequência. Coloque mais alguns anos na conta, e você está perdendo final para o Santo André no Maracanã lotado. Em seguida, você começa a depositar esperanças em Dimba para te livrar do rebaixamento. Aquele jogo em Porto Alegre? Ih, você já vê como derrota certa. É um processo, que demora muito tempo, mas você vai ficando para trás, vai aceitando as coisas.

Claro que há momentos de brilho aqui e ali, mas vocês entenderam.

O que esteve por trás disso tudo? Endividamento. Contratações desesperadas (Romário? Ronaldinho Gaúcho? Alex? Denilson? Gamarra?). Dinheiro que entrava fácil e saía mais fácil ainda. E, especialmente, um passivo que só aumentava. A ponto de tornar a gestão do negócio futebol simplesmente inviável.

A MUDANÇA DE RUMO

Até que surge, no fim de 2012, uma nova proposta. Isso teria que mudar. Não dava mais pra se combater o câncer com aspirina! Era preciso resolver a origem do problema, que é um endividamento monstruoso. E, mais importante ainda, era preciso explicar ao torcedor comum o que isso acarretava. E, claro, era preciso ter esperança de que isso iria funcionar.
Sou sócio do Flamengo, apesar de jamais ter morado no Rio. E com as redes sociais da época (Orkut e Twitter) fui um entusiasta dessa ideia. Participei da campanha, votei e, pronto, a eleição foi vencida por esse grupo. Em janeiro de 2013, começaria uma nova maneira de gerir o clube.

Corinthianos, não sei de todos os detalhes do seu clube. Mas vejo no noticiário que há problemas, sobretudo financeiros, que não existiam. Vejo, frequentemente, uma questão sobre a Arena, que me parece de difícil solução. No entanto, opinando como quem vê de fora, acredito que vocês vivem uma mistura do que nós, flamenguistas, vivemos em 1992 e 2013. O Corinthians acabou de proporcionar a vocês duas décadas de tantas vitórias quanto era possível. Com o tamanho do clube, com os investimentos feitos, com as contratações que deram certo, temos uma fórmula mais ou menos matemática. Clubes do tamanho do Corinthians vencem bastante em tais circunstâncias.

No entanto, a conta chega. E agora há problemas financeiros. Isso quer dizer que o Corinthians não mais disputará nada? Óbvio que não. Mas é preciso encarar a realidade: mantida a situação atual, a tendência é que o financeiro distancie o Corinthians de conquistas mais frequentes. É claro, sempre é possível apostar que as coisas vão continuar como estão (como o Flamengo fez após 1992), afinal o tamanho do clube acaba proporcionando vitórias importantes. Só que elas vão ficando, com o tempo, mais raras. É o processo, lembram? Não percebemos na hora, mas ele está lá, acontecendo. 

Mas dá pra tomar uma atitude, e mudar. Um outro caminho é possível, como o Flamengo fez em 2013. Já é algo tentado por alguns outros clubes (cito aqui Grêmio, Athletico e Bahia, mas não só), cada um à sua maneira, mas que poderão ganhar em breve uma vantagem competitiva importante.

A REESTRUTURAÇÃO

E como foi esse caminho para o Flamengo? Bem, vamos começar do começo, explicando algo que poucos torcedores entendem: o peso de uma dívida para o dia a dia do seu clube.

O Flamengo, no começo desse processo, devia R$ 750 milhões. Isso significa, sendo bastante amigável, que todo ano o Flamengo gastava algo entre R$ 120 a 150 milhões só para pagar juros. Isso dá R$ 10 milhões, pagos todo mês aos bancos, só pra não aumentar a dívida, ou seja, nada era pago de verdade. E em 2013!

Não é pouca grana. Com R$ 10 milhões por mês você monta hoje um time para brigar por vaga na Libertadores. Vai ficar ali, entre quinto e 10º colocado no Brasileiro. Pois o Flamengo pegava esse dinheiro e usava para pagar juros. Como a nossa arrecadação era algo entre R$ 250 e 300 milhões anuais, dá pra ter uma ideia do rombo: o clube tinha que cumprir as expectativas de um Flamengo, mas tinha para investir mesmo um orçamento do Bahia.

Então o óbvio para se fazer é: cortar gastos, pagar dívidas, aumentar arrecadação. É isso o que qualquer gestor faria. Mas é sempre difícil fazer isso no futebol, onde existem tantas lendas econômicas como a de que “jogador X se pagou só com venda de camisa”, ou “se investir a torcida vem e paga”. Tudo isso é falso. Com os valores atuais do futebol, então, não chegam nem perto. Boa gestão importa!

Logo no início desse trabalho, houve um momento de enorme simbolismo: o Flamengo tinha em seu elenco, em 2013, o Vagner Love. Jogador muito identificado, a época, com a torcida. Estávamos devendo parte do pagamento ao CSKA Moscou, da Rússia (o pagamento era feito em parcelas). O que foi preciso fazer? O Flamengo devolveu o atleta aos russos. Perdeu as parcelas que havia pago, mas se livrou de uma dívida de US$ 7,5 milhões. Boa parte da torcida teve uma síncope, desesperada. “Como assim? Perdemos nosso artilheiro!”. Sim, perdemos. Mas nosso campeonato, por enquanto, será o campeonato do balanço.
O treinador, na época, era o Dorival, que vinha desde a temporada anterior. Um bom treinador, para o que se propunha à época. Só que o contrato dele era muito caro. O que a nova gestão fez? Com tristeza, teve que rescindir o contrato dele. Um clube naquela situação econômica não podia se dar ao luxo de pagar o que pagava.

E assim foram saindo vários salários altos, e apostas foram contratadas. Algumas até deram muito certo naquele momento, mas era um elenco modesto. Ficamos na parte baixa da tabela, sofrendo derrotas duras. Felizmente, o imponderável entrou em campo na Copa do Brasil, e acabamos campeões. 

Esse foi o filme daquela temporada, e das seguintes. A prioridade era o orçamento. Fomos abandonados pelo Mano Menezes, por exemplo. Fazíamos contratações sempre modestas. Mas, fora de campo, as coisas iam melhorando. O Flamengo entrou no Profut, um programa do Governo Federal para parcelar e pagar dívidas de clubes de futebol. Centenas de milhões de reais foram retirados das preocupações imediatas, bastando pagar a parcela mensal em dia. E isso foi algo que o Flamengo fez questão de garantir, sempre.

Depois desse título temporão da Copa do Brasil 2013, passamos por momentos muito ruins. Sempre meio da tabela. Campanhas absolutamente esquecíveis. Derrotas dolorosas, como cair numa semifinal de Copa do Brasil para o Atlético-MG, mesmo tendo 3 gols de vantagem. Mas são os ônus de escalar sempre times regulares ou fracos: eles vão fazer perder. Podem até ganhar um jogo ou outro, mas não são vencedores.

Como eu me sentia como torcedor durante esse processo? Olha, mal. É triste ver derrotas e mais derrotas. Mas eu, particularmente, tentava ser o sereno da turma, lembrando: “Calma, gente. É um processo. Esse ano já foi melhor que o ano passado. Ano que vem será melhor. Vamos ter fé”. 

E, realmente, as notícias iam melhorando, devagar. Novos contratos aumentavam a arrecadação, e o dinheiro novo que entrava não vinha mais para fazer aquela contratação maluca, do ex-craque de 33 anos encostado na Europa. Ele era usado para quitar uma dívida trabalhista. Para pagar uma ação judicial.

Os imediatistas se irritavam muito. Começaram a chamar o clube de “campeão de balanço”. De “time de certidões”. Diziam o que importava era só a auditoria de empresas internacionais, prêmios de transparência, gestão. E a gente sofrendo com eliminações para o, vá lá, Fortaleza.

E já adianto: se isso aconteceu aqui, em que ficamos 25 anos ganhando pouca coisa, acontecerá aí muito mais. Afinal, a torcida corinthiana está acostumada com conquistas recentes. E é muito difícil que o torcedor aceite uma venda de um jovem por X milhões de euros, para que esse dinheirão seja usado para pagar banco. Talvez você até releve a contragosto na hora, mas quando tu leva uma goleada, dói. E fica difícil aceitar.

Eu tinha para mim que o Flamengo precisaria de uns 10 anos para ficar competitivo. Limpo, sem dívidas, competitivo. Mas o processo começou a dar frutos já no segundo triênio. Aquela montanha de dinheiro que era usado para pagar juros, para garantir penhoras, com o tempo passou a ficar livre. No primeiro ano, veio o Guerrero. No segundo, o Diego Ribas. As peças começaram a se encaixar, o time saiu da metade baixa da tabela e começou a ficar no G4, G5 do Brasileiro. O processo começava a mostrar que funcionava.

Mas (e isso é difícil pro torcedor aceitar, pois ainda estávamos diante de um processo) ainda havia um buraco. Menor, mas era um buraco. Um exemplo: Everton Ribeiro queria sair dos Emirados Árabes e Diego Alves estava com o contrato acabando no Valencia (ESP). Dois nomes já de peso. Um dirigente tradicional iria acabar pagando multas para ter logo os atletas em campo. Afinal, naquela temporada específica (2017, ou ano 5 da reconstrução) as inscrições da Copa do Brasil se encerravam no meio do ano.

Mas o Flamengo, mesmo tendo acertado com os atletas e clubes, optou por esperar meses para recebê-los no elenco. Poupou alguns milhões de multa, e os jogadores chegaram após o término das inscrições para a Copa do Brasil, competição em que chegamos à final contra o Cruzeiro. Nessa decisão, tivemos que jogar com um goleiro de nível muito abaixo, pois um dos arqueiros estava machucado, outro tinha caído em desgraça, e outros eram muito jovens. Quis o futebol que o Cruzeiro desse um chute a gol nos 180 minutos do confronto, marcando o gol, com falha grosseira do jovem arqueiro. 1×1 no Rio, 0x0 em BH: perdemos o título nos pênaltis. Economizamos milhões, mas perdemos uma copa por não ter um goleiro de nível razoável para a final. 

Ou seja: a gente paga um preço dentro de campo, pela disciplina administrativa fora dele. Mas hoje o Flamengo está onde está. E o Cruzeiro, já se sabe, viveu um 2017 e 2018 muito acima do que podia pagar. E está onde está.

Derrotas à parte, era inegável que a evolução chegava. O time frequentava a parte de cima da tabela, mas perdeu finais e jogos decisivos. Aí a acusação dos imediatistas passou a ser outra: “time de bananas”, “pipoqueiro”. Nessa época houve ENORME rejeição ao processo que, mesmo com os resultados chegando, já frustravam a torcida.

Eu, que acabava tendo algumas informações cá e lá, sempre ouvia: olha, estamos evoluindo, mas a coisa ficará boa a partir do ano tal. Era o ciclo virtuoso, no lugar do vicioso. Receitas decolando, a âncora do passado cada vez mais leve, a estrutura sendo feita.

O ANO DA REDENÇÃO

E, estrategicamente, o salto ficou para 2019. Era esperado algo tão estrondoso como o Flamengo de Jorge Jesus? Não. Há coisas que não se esperam. Mas sempre se soube que, em algum momento, a força financeira iria se refletir dentro de campo. Ano passado, vieram para o clube nada menos que oito titulares; o único por empréstimo foi Gabriel Barbosa, posteriormente comprado em definitivo. Quando você pega um time que ficava entre os 4 primeiros e adiciona oito titulares, há uma enorme probabilidade de sucesso.

E hoje? Bem, uma metade da laranja está evidente: as receitas. Pularam de R$ 300 milhões no começo de tudo para R$ 931 milhões em 2019. Um salto extraordinário que, ao contrário do que se pensa, não é calcado na TV (que representa algo como 27% do orçamento, a menor proporção do G12 brasileiro).

A outra metade, e essa sempre me interessou, são as dívidas. Aquela dívida de R$ 750 milhões (cerca de R$ 900 milhões em valores atuais) inviabilizava qualquer coisa. São muitos juros, encargos, penhoras, que só atrapalhavam, e em todos os sentidos. Credores não esperam sentados pelo pagamento. Resolver a dívida tributária com o parcelamento do Profut foi fundamental, pois tirou 60% do peso. As demais foram sempre prioridade: quando entrava receita nova, essa era dedicada a pagar dívidas. Confesso: vocês vão vibrar mais com um boleto pago que com um gol. 

Hoje o Flamengo tem uma dívida por volta de R$ 400 a 450 milhões, a grande maioria no Profut e, portanto, parcelada. E sabem por que isso é fundamental? Porque não há risco de penhora, não há títulos protestados, não há salários atrasados ou cobradores. Isso gera um excelente ambiente de negócios, e acaba colocando o clube numa outra prateleira na hora de negociar com os grandes players do futebol internacional. Você ganha credibilidade e respeito, e isso faz diferença. É até inusitado para um europeu ver um clube brasileiro chegar lá e fazer compras de 10, 15 milhões de euros. Sem atrasar um dia. Mas hoje, estamos fazendo isso.

Se na época de caloteiros tínhamos que pagar mais caro para trazer jogador mediano (jogador sempre cobra mais caro de clubes que atrasam salários), hoje estamos conseguindo vencer disputas por atletas oferecendo salários menores, porque aqui eles sabem que vão receber em dia e vão brigar por tudo. É dinheiro chamando dinheiro. E assim o ciclo virtuoso se fecha.

E O CORINTHIANS?

Na minha opinião, se o Corinthians suportar o começo do processo, irá viver um círculo virtuoso que pode sim ser como o nosso. Acreditem: o peso vai ficando menor a cada ano, até o momento em que as coisas começam a acontecer. Mas é preciso estratégia, é preciso frieza, é preciso direção. Não se pode chutar o balde após perder por 3×0 em casa. É algo que demora um tempo para amadurecer, e exige paciência do torcedor.

O que poderia acontecer com o Corinthians, se ele optasse pela “solução Flamengo” em 2020, digamos? É difícil, pois não estou ciente dos números do endividamento do Corinthians, ou da receita. Mas eu seria otimista, mesmo assim. 

E penso assim porque o Corinthians 2020 certamente parte de uma situação muito melhor que a do Flamengo em 2013. Tem um monte de títulos relativamente recentes, e formou uma geração inteira de torcedores jovens e vitoriosos (como eu fui), que vai ter onde se agarrar para “suportar” os anos difíceis. E é bom que o dirigente saiba que tem essa margem para pedir paciência. Ainda que o imediatista não aceite: esse vai exigir pagar as dívidas e ser campeão brasileiro ao mesmo tempo. Mas isso não vai acontecer, pois o processo cobra seu preço dentro de campo. O executivo, o gestor entende isso. O cartola amador não entende, ou não quer entender.

Além do mais, o Corinthians 2020 pode até ter um débito comparável ao do Flamengo 2013, talvez. Mas seguramente parte de receitas já bem maiores que as do Flamengo 2013, que estava em estado lamentável. E isso faria diferença, também. Aquele Flamengo, amigos, era absolutamente amador. Tirava o pouco dinheiro do futebol para custear esportes olímpicos. Era um clube que imaginava pagar Ronaldinho Gaúcho com recursos que nem de longe tinha. Era um clube em que pessoas brincavam com milhões de reais, e sequer se preocupavam em dar ao elenco um Centro de Treinamento adequado, ou pagar salários. O Corinthians, mesmo com seus descalabros recentes, não chegou tão fundo, eu sei disso.

Em síntese: creio que o Corinthians 2020 parte de um pressuposto bem melhor que o existente no Flamengo em 2013. Aqui no Brasil, só o Corinthians é capaz de arrecadar valores como os que o Flamengo arrecadou em 2019, é um fato. Portanto, podemos imaginar que a liberação do potencial econômico seja mais ou menos igual. Se o Flamengo passou três anos em total penúria, seguido de três anos de crescimento gradual para se chegar a 2019, não acho impossível que o tempo de purgatório do Corinthians seja menor. 

Mas isso dependerá, claro, da seriedade e comprometimento com o processo, o bendito processo, de cortar despesas na própria carne, custe o que custar, para ganhar mais a frente. Dói em alguns momentos, mas já adianto que vale muito a pena. Vamos acompanhar.

Saudações e boa sorte.

Compartilhar: