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Até o próxima Copa do Mundo, Tite ainda tem tempo para tomar a sua decisão. Opções táticas, de estilo e características não faltam

Blog Molambo Racional | Daniel Endebo – Twitter: @mulambasso

Aos 31 anos, sou de uma geração abençoada por ter visto grande momentos e conquistas da seleção brasileira. Na minha infância e adolescência, ver craques desfilando com a camisa amarela era comum. Diz um amigo que ficamos mal acostumados: na década da paixão pelo futebol, vimos o Brasil jogar 3 finais de Copa do Mundo. Esse era o nosso padrão.

Nas três oportunidades, o Brasil tinha um centroavante de elite, daqueles históricos, pra ninguém botar defeito. Romário e Ronaldo “Fenômeno” foram eleitos melhor do mundo, ganharam a Copa e ajudaram a construir uma narrativa de que a posição estar bem servida era lugar comum quando falávamos da Canarinho. Pois bem, tudo mudou a partir de 2006.

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Ronaldo ainda era titular e vestia a camisa 9 da seleção, mas anos de lesão e uma forma física cada vez mais decadente davam o tom de que o fim se aproximava. O herdeiro natural seria seu companheiro naquele time, vestia a camisa 7 e atendia por Adriano “Imperador”, um atacante menos técnico e vistoso que os antecessores, mas fisicamente dominante e que colecionou momentos decisivos na seleção nos anos anteriores. Por questões que nada tem a ver com o jogo, o auge do ídolo do Flamengo durou pouco e a derrocada veio antes mesmo da Copa seguinte.

Quem assumiu o vácuo foi Luís Fabiano. O “Fabuloso” já era um dos principais goleadores no país jogando pelo São Paulo e fez carreira bastante correta jogando pelo Sevilla. Seu desempenho individual na Copa 2010 foi acima dos seus companheiros, mas, tal qual para vários atletas, ali foi o fim de um ciclo na seleção.

O pós Copa 2010, que poderia ser chamada de “Era Neymar”, teve uma série de testes (Alexandre Pato, Leandro Damião, André, Ricardo Oliveira, Jô), mas coube a Fred a incumbência de vestir a camisa 9 na “Copa das Copas”. Após bom desempenho na Copa das Confederações, a atuação em 2014 não deixou saudades e também fechou o ciclo para o ídolo tricolor.

Veio novo ciclo e, sob comando de Tite, o Brasil parecia ter encontrado seu homem-gol: Gabriel Jesus. Cria do Palmeiras, teve uma performance acima do esperado nas eliminatórias e carimbou sua vaga rumo à Rússia. Na Copa, porém, o garoto não conseguiu repetir as boas atuações e saiu em baixa.

A questão, portanto, é: quem pode assumir o posto de centroavante titular da seleção brasileira daqui pra frente? Vamos analisar algumas opções a partir de agora.

Premissas básicas

  1. Pra começo de conversa, é necessário pontuar que comparar jogadores de ligas diferentes é um desafio em si; são adversários, companheiros, esquemas táticos e protagonismo diferentes. A ideia, portanto, não é dizer que A é melhor que B, mas sim apontar alternativas e caminhos que façam sentido para nomes analisados.
  2. Por razões óbvias, não será possível analisar todos os jogadores disponíveis para a vaga, uma vez que nem todo jogador está atualmente no radar da seleção ou da opinião pública. Tentarei mencionar alguns nomes que podem ser “wild cards”, mesmo sem entrar em tantos detalhes.
  3. Nomes que já frequentaram a seleção ou tem um desempenho animador em ligas com mais visibilidade serão priorizados na análise. Assim sendo, estarão nessa análise: Gabriel Jesus, Gabigol, Roberto Firmino, Richarlison e Matheus Cunha  Neymar também aparecerá no debate. Outros jogadores de ataque aparecerão em momentos específicos, por entender que, a priori, nenhum deles desempenha a função em análise.

Gols, finalizações, produção: o ofício do 9

Ponto pacífico: em uma análise de atacantes, não há como ignorar o seu faro de gols. Fred (2014) e Gabriel Jesus (em 2018) sofreram severas críticas da opinião pública por conta da falta de gols e, mesmo que tivessem colaboração em outros atributos, ficaram marcados como “9s que fracassaram em Copas”. Justo ou não, é parte do fardo que carrega a posição. Assim sendo, falar dos gols é uma parte elementar da análise.

Chart: comparision between brazilian strikers, per season
Comparativo de gols, ano a ano*

Para efeitos comparativos, as temporadas no Brasil foram equiparadas às europeias com base na distribuição de jogos pela temporada corrida — ou seja: se um jogador atuou em janeiro de 2015, esse número não é computado, uma vez que a temporada europeia 2015/16 começa a partir do segundo semestre.

Com exceção de Roberto Firmino e Neymar, todos os atacantes analisados tem idade olímpica (até 23 anos). Ou seja: ainda estão numa fase inicial de carreira e provavelmente atingirão seus auges como goleadores ao longos dos próximos anos. No texto que escrevi sobre Lewandowski, dá pra ter uma ideia de como alguns dos principais artilheiros do mundo nessa década evoluíram ao longo do tempo, até que atingissem um patamar de 20~25 gols, em média, por temporada, com mais de 0,5 gol por jogo. Veja a comparação em total de gols e médias dos jogadores com 23 anos:

Chart: strikers performance until 23 years
Desempenho até os 23 anos
  • Alguns jogadores foram lançados profissionalmente mais cedo que outros, o que confere a eles um volume de jogos e gols superior à maioria — Aguero, por exemplo, recebeu suas primeiras chances no Independiente aos 15 anos. Uma forma de tentar equilibrar essas diferenças é analisar o desempenho por 90 minutos; nesse cenário, contando a performance até os 23 anos, Gabriel Jesus e Gabigol não devem nada a atacantes históricos da década.
  • Outro aspecto importante é que alguns jogadores demoraram mais que outros a estarem em uma situação tática e de protagonismo maior. Salah, por exemplo, deslanchou na Roma, aos 22 anos, depois de rodar por uma série de clubes. Firmino, por outro lado, foi armador no Hoffenheim antes de se consolidar como o 9 do Liverpool multicampeão; e Richarlison, apesar da pouca idade, só agora parece estável em um time competitivo.
  • Matheus Cunha, por fim, é o mais jovem de todos os nomes. Seus números contabilizam dados apenas até os 21 anos, contra 23 dos demais analisados. Esperado, portanto, os números mais discretos.

Outro jeito de olharmos para a produção dos nossos atacantes é aplicando o conceito de expected goals (xG), uma projeção de quantos gols são esperados que um determinado jogador faça, dada a qualidade da oportunidade. Vendo a produção de cada um (isto é, gols menos xG), nos últimos 3 anos temos:

Chart: plus/minus goals — xG
Produção: gols – xG

Neymar é um ponto fora da curva. Ele marcou 25 gols a mais do que o esperado no período analisado. Parte disso se explica pela forma como o PSG, seu time, é dominante — especialmente em sua liga. Jesus e Firmino, de Manchester City e Liverpool, respectivamente, também fazem parte de dois dos mais dominantes times que a Premier League já conheceu e não é de surpreender que também tenham performado bem acima do esperado. Richarlison é uma boa nota nesse cenário: desde que chegou à Ingletarra, jogou por Watford e Everton, dois times de ambições bem mais modestas. E, mesmo assim, conseguiu um bom desempenho individual, com boa evolução nas últimas duas temporadas. 

Veja também: Como Gabigol marca seus gols? Entenda padrões, qualidades e posicionamento do atacante do Flamengo

Gabigol teve uma produção discreta em comparação aos demais, mas aqui cabe ressaltar que não foram computados (por falta de informação) números de campeonatos estaduais — o que certamente elevaria as duas métricas. Matheus Cunha, por fim, tem uma produção levemente superior a zero, porém com um alento: seu xG desde que chegou ao Hertha Berlim, no início da temporada, é positivo em +1,5 — ressaltando, uma vez mais, que Matheus é a mais jovem das opções. Considerando competições domésticas e internacionais, nos últimos 3 anos, o total de cada jogador é:

Chart: total gols = production + xG
Total de gols = xG + produção

E que tal a qualidade das finalizações, métrica que consiste em dividir o número de finalizações pelo xG, a fim de compreender quão boas são as conversões do atleta?

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Tabela comparativa de qualidade das finalizações

Essa tabela é interessante para levantar certos questionamentos: Gabigol, quem tem o melhor índice de qualidade, é um jogador do “toque final”? Firmino, que tem um papel central na distribuição do ataque dos Reds, tem seu xG “prejudicado” por passar muito tempo mais distante do gol? Richarlison precisa melhorar sua tomada de decisão na hora de finalizar ou seu desempenho é prejudicado por uma questão tática? Um jeito de responder essas questões é entendendo melhor onde ocorrem os chutes:

Table: shots distribuition per location
Distribuição de chutes por localização

Neymar, tal qual ocorre na seleção, tem liberdade para circular, driblar e ainda tem um papel importante na bola parada — o que ajuda a explicar seu alto volume de finalizações de longa distância. Jesus e Gabigol, de fato, são pontos focais na conclusão de uma ação ofensiva, e tiram muito proveito do volume de chances que suas equipes criam. Firmino, conforme questionamento anterior, usa sua mobilidade e capacidade de passar para criar espaços, o que explica sua distribuição equilibrada de finalizações. Richarlison e Matheus Cunha, por outro lado, jogaram boa parte de seus minutos distantes da posição de centroavante — o que os obrigou a ter finalizações com melhor marcação e mais difíceis de converter. Com mais espaço e tempo em campo, esses números tendem a mudar rapidamente.

Movimentação, posicionamento e criação: colaboração ofensiva

Nem só de gols vive um centroavante, no entanto. Há dois anos, a França conquistava sua segunda Copa do Mundo com um camisa 9 que simplesmente não fez gol. Giroud, atacante do Chelsea, repetiu a dose de Guivarc’h, 20 anos antes, e terminou o torneio zerado. O que explica, então, sua titularidade?

Bom, além da predileção do técnico Deschamps, o centroavante oferecia uma série de pequenas contribuições que tornavam o time melhor: ótimo pivô, um tormento defensivo pelo alto, um passador inteligente e alguém que, apesar da posição, não se importa em ser coadjuvante. Tudo que ele fazia, colaborava para que Mbappé, Griezmann e Pogba fossem potencializados no sistema ofensivo. Mesmo sem ser o mais talentoso 9 disponível na França, Giroud era um ótimo encaixe para um time vencedor. Voltando à seleção brasileira: Tite recorrentemente usa um modelo de jogo com 3 atacantes, sendo Neymar intocável em uma das vagas. Assim sendo, em um ataque posicional, o craque do PSG costuma atuar mais pela esquerda — falta definir os outros espaços.

Olhando para a ocupação de espaço dos jogadores analisados, temos o seguinte retrato:

Heatmap during the 2019–20 season
Mapa de calor comparativo

Neymar, uma vez mais, descola dos demais jogadores em “influência” e presença nos jogos. Seu jogo acontece bastante pelo lado esquerdo, mas o camisa 10 tem cada vez mais liberdade para operar no ataque. Firmino tem um papel bastante singular no poderoso ataque do Liverpool e é versátil o suficiente para atuar enfiado na área ou preparando as ações ofensivas — o que lhe rendeu rasgados elogios de HenryGabriel Jesus, que em temporadas anteriores atuava em várias posições do ataque, tem aproveitado a lesão de Aguero para assumir a centroavância do Manchester City e sua presença na área é cada vez maior; Richarlison, depois de algumas temporadas de adaptação e disponibilidade aos treinadores, deixou claro sua predileção em jogar centralizadoGabigol, principal artilheiro do Brasil em 2019, tirou muitos aprendizados de sua parceria com Jorge Jesus e tem na movimentação um diferencial para outros finalizadores de alto nível; por fim, Matheus Cunha ainda segue em busca de maior protagonismo no seu time, mas conta com o ótimo desempenho na seleção pré-olímpica como centroavante para convencer Tite de que pode competir pela posição.

Quando olhamos para a criação, enxergamos com clareza a importância de Firmino nesses fundamentos:

Chart: assist per 90 min x key passes per 90 min
Assistências por 90 min x KeyPasses por 90 min

O gráfico mostra a distribuição de assistências por 90 minutos e os key passes, aqueles que resultam em finalização, também por 90 minutos. A intenção de ter esse olhar é evitar distorções em amostragens tão díspares. Por fim, o tamanho dos círculos representa o volume de assistências que cada jogador teve, somado, nos últimos 3 anos — em competições nacionais e internacionais apenas. Em um sistema que use três avançados, ter jogadores capazes de criar situações de gol é fundamental para maximizar o potencial ofensivo do time.

E para fechar esse tópico, um outro olhar que ajuda a entender mais sobre o estilo de cada opção:

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Dribles, duelos vencidos no chão e pelo alto — números médios e percentuais

A tabela da esquerda mostra o número médio de cada ação para cada jogador por jogo. Ou seja: Gabriel Jesus dá, em média, quase 6 vezes menos dribles do que Neymar por jogo. Já a tabela da direita mostra o índice de sucesso dessas ações. Isto é: Jesus tem um sucesso de dribles maior que Neymar. É claro que é importante ter contexto e o número, em si, não diz muita coisa. Há o estilo de jogo do time, o tipo de adversário que se enfrenta, o protagonismo que cada jogador tem na equipe. Mas há indícios interessantes aí: Richarlison, por exemplo, é um atleta que provoca enfrentamentos individuais e, na média, se sai muito bem. O atacante do Everton consegue incomodar seus adversários com presença física e também com jogadas de mano a mano. Matheus Cunha é outro que tem potencial e porte físico para criar problemas para os adversários. Os Gabrieis, por outro lado, assumem uma função mais voltada para definição rápida.

Uma alternativa tática

Bom, depois de passar por uma dezena de argumentos e estatísticas, há uma reflexão possível aqui: e se o 9 ideal for, simplesmente, o melhor jogador? Tite tem a possibilidade de fazer um experimento tático com Neymar na referência, total liberdade para operar no ataque e, para complementar, utilizaria dois pontas/extremos, que o Brasil tem produzido aos montes nos últimos anos. Por exemplo: hoje em dia, Vinícius Júnior e Rodrygo, ambos com 19 anos, atuam no mesmo time — Vinicius mais pela esquerda e Rodrygo mais pela direita. Ainda carecem de maturidade e protagonismo, mas é perfeitamente possível imaginar os dois criando um entrosamento que resolveria problemas de adaptação e pouco tempo de treino. Ou utilizar Everton Cebolinha, ainda bem jovem também, e com grande destaque na conquista da Copa América 2019. Malcom ou Douglas Costa, ambos canhotos, para jogar cortando pra dentro, estilo que consagrou Robben, por exemplo. Enfim, alternativas não faltam; o desafio principal é transformar Neymar no centro gravitacional do ataque brasileiro e largar a ideia ortodoxa de ter um camisa 9 mais clássico.

Quem pode surpreender?

Se nada disso funcionar, Tite pode recorrer a outros nomes que, nesse momento, ainda são pouco conhecidos do torcedor médio. Arthur Cabral (Basel)Wesley (Aston Villa) Joelinton (Newcastle), são jovens (23 anos ou menos), altos (todos com 1,85 ou mais) e podem oferecer um estilo que os nomes analisados talvez não comportem. Arthur é quem vive melhor momento e logo mais deve pintar em uma liga mais competitiva que a suíça. De toda forma, por ora, os três parecem passos atrás dos demais.


Até o próxima Copa do Mundo, Tite ainda tem tempo para tomar a sua decisão. Opções táticas, de estilo e características não faltam. Cabe a ele fazer funcionar para que a próxima geração possa dizer que é tão sortuda quanto a minha.

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*Créditos da imagem destacada no post e nas redes sociais: Alexandre Vidal / Flamengo

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