Domènec tem pensamento agressivo, ofensivo e ousado. Alguns chamam de corajosa a sua metodologia, nunca sentando sobre o sucesso

Blog Ninho do Urubu | Bruno Guedes – Twitter: @eubrguedes

O Flamengo confirmou Domènec Torrent como novo treinador. Ele será o 12º técnico estrangeiro a comandar o rubro-negro. E chega para substituir uma passagem histórica do português Jorge Jesus. Apesar de ideias ofensivas e agressivas com a bola, as filosofias de jogo e até treinos são um pouco diferentes. Mas isso não deve aparecer por agora.

Domènec e Guardiola foram os grandes desenvolvedores das ideias ultra-ofensivas do Barcelona do Messi. Para isso, aplicaram e muito o ideologia do chamado jogo posicional. É um jogo focado por zona ou localização. Ele combina vários elementos e necessidades para que funcione, como time muito compacto e fechado, ataques e defesas em blocos, muita posse da bola, superioridade numérica sobre o adversário, passes curtos e respeito máximo ao posicionamento.

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Todos os jogadores participam dos 90 minutos. Não existe tarefa isolada. Para funcionar é preciso da participação até do goleiro de todo o processo. Como podemos ver, algumas semelhanças com Jesus. Porém, algumas diferenças são cruciais. Torrent declarou, nas reuniões com Marco Braz e Bruno Spindel, que manteria o padrão deixado pelo Mister. Ainda assim, será impossível que suas metodologias não entrem aos poucos na equipe.

Por isso, a coluna Ninho do Urubu preparou um raio-x comparando cada um, tentando não usar o “tatiquês” e explicando de forma mais simples possível:

Treinos

Treino é jogo e jogo é guerra. Assim trabalha Torrent durante os treinos. Em sua metodologia, é durante a semana que os jogadores jogam. Isso mesmo, jogar no treino. As partidas são execuções de exatamente aquilo que treinaram nos dias anteriores. Por isso a cobrança é alta, assim como a intensidade e a exigência máxima de cada jogador durante eles. Jesus tinha filosofia parecida.

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Como o próprio Rafinha já revelou em entrevistas, Domènec é um especialista na parte de aplicação de treinos. Durante sua temporada como auxiliar do Guardiola, ele quem colocava em prática as metodologias discutidas, desenvolvidas e criadas pela comissão técnica. Vale lembrar que isso não quer dizer que as ideias são todas dele, mas sim aplicadas por ele. Claro, com práticas constantes, sabe exatamente como usá-las e desenvolvê-las. E aí está o grande trunfo.

As práticas são curtas, geralmente entre 40 minutos e uma hora e meia, mas aliando todas as esferas possíveis, como tática, física e técnica em conjunto. Não só ele, mas os mais atualizados treinadores sabem que não há mais espaço para treinamentos separados. Durante as partidas, todos os componentes estão em conjunto. Por que então treiná-los de forma isolada, afastando da simulação real do que se fará em campo?

Defesa

Jorge Jesus sofreu muitas críticas por parte da mentalidade arcaica de ver futebol quando, em sua estreia contra o Athlético, colocou a defesa do Flamengo bem alta. Com Torrent, isso permanecerá e será ainda mais exigido. O catalão, assim como seu companheiro de ideias Pep Guardiola, gosta de linhas bem adiantadas, sufocando e pressionando o adversário contra o seu próprio campo. A mentalidade é simples: ficar o mais distante do seu gol e mais próximo do rival. Atacando enquanto se defende.

E não só defesa adiantada. O time todo em bloco. Marcar em cima requer atenção de todos. Literalmente. Enquanto uma ação é executada pelos atacantes lá na frente, zagueiros e laterais precisam ficar atentos. E vice-versa. Por tal motivo, as equipes agora jogarão bem mais compactas, pressionando por zona o tempo todo. Do primeiro ao último jogador, o time tentará ocupar uma pequena faixa do campo, limitando assim qualquer ação adversária. Como dizem: linhas fechadas, impedindo a circulação dos atacantes e meias à frente da zaga.

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Com Jesus isso acontecia, porém de forma menos intensa. Desde o Gabigol os rivais eram pressionados. Mas, quando a bola saía da zona de marcação dele ou dos demais atacantes, rapidamente todos voltavam para recompor defensivamente e recomeçar. E a faixa de campo era um pouco mais espaçada, justamente por causa da troca de posição entre os jogadores de frente.

Com o novo técnico isso deve mudar. Se a bola sai de um lado e vai para o outro, o time todo se desloca, mantendo o padrão e a compactação, para onde ela for. Daí a necessidade de atenção durante os 90 minutos da partida. Algo que o Mister também cobrava. E, claro, intensidade alta o tempo todo. O TEMPO TODO.

Ataque

É na parte ofensiva que está a maior diferença entre Jorge Jesus e Domènec. Se o Mister gostava dos atacantes mudando de posição o tempo todo e confundindo a marcação, como falado anteriormente, Torrent é adepto do jogo mais posicional. Ou seja, atletas atacando a sua zona pré-estabelecida, sua posição dentro de uma engrenagem maior que é a equipe. Tal pensamento é a maior incógnita sobre a sua reação no time já estruturado. Ainda que não seja mudado imediatamente agora, é uma parte fundamental para o sucesso das equipes com tal modelo de jogo.

O trio Gabigol, Bruno Henrique e Arrascaeta mudaram de patamar – para usar a expressão popular – justamente quando Jesus passou a trocá-los de posição e levar o caos às defesas adversárias. Por vezes, como nesta temporada, Gabriel passou a jogar recuado ou pelos lados, dando muitas assistências.

E se JJ gostava de atacar bastante pelos flancos, o catalão mistura. Os laterais jogam mais por dentro, apoiando meio-campo e saída de bola, porém as triangulações pelos lados são armas fundamentais no sistema ofensivo. A filosofia de sempre usar a agressividade de um terceiro homem, de dentro para fora (do meio campo para os lados) e voltando para dentro, depende muito desses triângulos de jogadores. Até por tal motivo, os atletas que atacam nessa faixa do campo são os mais velozes e dribladores.

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Já pelo meio, a construção toda começa ali, segundo Domènec. Os volantes são cruciais. Precisam ser técnicos e com ótimos passes para dar início às jogadas. Como falamos, elas vão desta zona para fora, buscando os que atacam os lados adversários. Nesse aspecto, articuladores criativos são essenciais, algo que pode fazer com que Éverton Ribeiro, Gérson e até mesmo Arrascaeta apareçam ainda mais.

Até por tal motivo, os laterais têm papeis fundamentais. Pep gostava deles mais pelo meio, apoiando por dentro. Mas no Barcelona, Daniel Alves e Jordi Alba eram quase extremos, chegando bastante no ataque pelos lados. Guardiola ficou famoso também por transformar o Lahm em volante, ideia conjunta com Torrent, de acordo com o livro “Guardiola Confidencial”. Por momento isto não deve mudar no Flamengo, porque requer muito treino. Mas com Filipe Luis e Rafinha já mais veteranos, a possibilidade deve aparecer num futuro próximo.

Domènec tem pensamento agressivo, ofensivo e ousado. Alguns chamam de corajosa a sua metodologia, nunca sentando sobre o sucesso, buscando sempre melhorar e desenvolver as ideias. Caso isso se confirme no Brasil, uma grande oportunidade deve ser a de ampliar ainda mais as ideias e métodos de jogo deixado pelo Jorge Jesus.

O legado é bom. O novo técnico também. O Flamengo pode estar transformando seu futebol para sempre e talvez até criando um novo modelo próprio, agora mesclando dois treinadores parecidos no jogo bonito, mas diferentes de como chegar a ele.