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A sua vida era um primeiro tempo em que nada dava certo. Mas como seria bonito se todo mundo tivesse a chance de um segundo tempo, não é?

Blog Cultura Rubro-Negra | Por Marcelo Dunlop – Twitter: @MarceloDunlop

E a debandada do Mister, hein? No grupo do Whatssap do República Paz & Amor, e provavelmente nos teus aí também, a notícia acabou em treta. Culpa minha, que ao saber que nosso comandante português já içava as caravelas para retornar a Portugal (ou já foi? Vai amanhã?), enxuguei o choro e desabafei:

Dunlop (cor roxinha)
“E eu, como fico? Fiz promessa de beijar os pés de Jorge Jesus caso ele nos levasse ao bi da Libertadores – agora vou precisar dar uma bitoca no pé de um técnico do Benfica!”

Vivi Mariano
(Figurinha)

Jorge Murtinho
“Devagar, Dunlop. Se o treinador rompeu o contrato, você não está automaticamente liberado de romper a promessa?”

Arthur Urublog
“Com a devida venia, Jorge: se há uma cláusula de rescisão e uma das partes exerce essa cláusula não há rompimento. Te prepara pro beijo com chulé, Dunlop!”

Arnaldo Branco
“Pessoal, hoje só tenho um horário disponível para tretar, de 18h53 às 19h, pode ser?”

Nivinha Fla (por áudio, matando a pau)
“Apaporra, nunca teremos um ano de tranquilidade? Nós rubro-negros, como disse o poeta, só conhecemos dois estados mentais: a Crise na Gávea e o Oba-Oba. O Flamengo nos obriga a beber!”

Resignado, fechei a janelinha do grupo na esperança de que o velho ditado fosse real: “Quando Deus fecha uma porta, Ele abre sempre uma janela, e se fecha a janela, Deus abre a basculante do WC, e fica todo mundo na casa maluco com esse abre-e-fecha”.

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Pois não é que foi batata? Na mesma hora, uma janelinha verde piscou, com uma bonita história flamenga. O fornecedor, meu informante favorito, era o amigo Dyocil, um Indiana Jones carioca que volta e meia desencava, sem chicote nem chapéu, ótimos causos desse Rio de Janeirão de meu deus.

“Fala Dun”, confirmou o Dyo, “falei com a fonte. Depois de oito meses, segue tudo bem com o camarada rubro-negro. Isso mesmo, o homem ainda não voltou de Lima!”

Não sei como os cronistas experientes lidam com essas coisas. Eu, garoto novo no ofício, quando me servem uma iguaria assim, fico um Marcos Braz às avessas – com o sol no sangue. Os pelinhos do braço chegam a eriçar, saca?

Após frenética troca de áudio, começo a conhecer meu personagem. Personagem não: meu herói. Meu mais novo ídolo, já que o saudoso Jesus não quis dar a outra face, e sim dar no pé.

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O nome dele? Olha, não pense que não confio em ti, leitor. Mas sabe como é, o cara não quer divulgação. Imagina o Caco Barcellos batendo lá na comunidade ao saber da história? Sem falar que o pai anda enfrentando problemas de saúde. Portanto, boca de siri.

Vamos, então, escolher um apelido para a fera. O nome de um exilado famoso. Adão, o primeiro expulso do paraíso? Napoleão? Chaplin? Gonçalves Dias? Facilitemos. Em vez de um nome, um número qualquer, para não dar confusão. Você escolhe. Não, escolhe você… Bem, escolhi: chamemos nosso herói de, digamos, Trinta e Sete.

Para contar a história do bravo Trinta e Sete, precisamos voltar a novembro de 2019. Hein? Não, não há tempo para anotar nenhum número da loteria, vamos já. Novembro de 2019, e o Trinta e Sete não estava nos seus melhores dias. Cabisbaixo, sem vintém, caminhava arrependido pelo morro, ciente de que descumprira um dos dez mandamentos da malandragem. Aquele que prega: “Não darás tchauzinho à mamãe com as mãos aferradas às costas”.

Pois é, nosso amigo sucumbiu a tentações, pegou maus atalhos, dormiu na tranca dura. Foi ao inferno e voltou, mas em liberdade a coisa não melhorava muito. Arrumar um emprego decente, com a ficha dele, é impossível no Brasil. E o que doía mais: o olhar duro das senhoras vizinhas e da criançada da favela, que chegava a perfurar a carne. Era apontado como mau exemplo.

A vida do Trinta e Sete, como se percebe, assemelhava-se a um primeiro tempo em que nada dava certo. Mas como seria bonito se todo mundo tivesse a chance de um segundo tempo, não é? O Trinta e Sete teve.

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O segundo tempo do Trinta e Sete começou num churrasco. Daqueles. Foi ali, perto da brasa lotada de bistecas, capa de gordura, e os amigos todos reunidos, que sua vida começou a virar. Saca o chutão do Diego no fim do jogo com o River Plate? Foi daquele jeito.

O Trinta e Sete chegara sorrindo, chinelo, bermudão e Manto Sagrado, além da tatuagem rubro-negra. Corta carne daqui, serve de lá, e um dos amigos mandou de longe, à la Diego: “Vamos com a gente ou não vamos?”

Ah, não havia ninguém no planeta que gostaria mais de ir ao Peru ver a final da Libertadores do que nosso amigo. Na casa de seus 35 anos, ele tinha sido geraldino raiz, de pegar lata de leite em pó na casa dos tios para ir trocar por ingresso, nos tempos em que o Mais Querido tinha Pet, Edílson e Juan. Mas viajar até Lima? Não tinha ingresso, dinheiro nem roupa.

– Parceiro, é contigo mesmo: vamos em quatro ônibus e no último tem uma vaguinha. Tu é irmão, e a gasolina já está paga mesmo. Bora?!

Ah, como pensam rápido os heróis, não é mesmo? Você e eu, provavelmente, pensaríamos em coisas materiais como mudas de roupas e casacos, e em tolices como dar um beijo de despedida na namorada. Mas o Trinta e Sete? Meus amigos, o Trinta e Sete soltou um zap para a mãe, e pronto. Às seis da tarde, quando a frota de ônibus deixou a comunidade, um dos mais famosos berços do samba carioca, o Trinta e Sete estava lá. “Se o ônibus enguiçar, eu empurro, podem ficar tranquilos”, disse ele, pau para toda obra.

Depois de uns cinco dias sacolejando no bumba, 120 e tantas horas de odisseia, estavam em Lima. O Trinta e Sete não era sujeito de viver na aba, tampouco aguentava mais uma noite dormindo no ônibus, e foi à luta. Encontrou logo um dos estabelecimentos mais animados da noite peruana, e começou a se enturmar. Ganhou a galera na lábia e propôs: de noite, ele beberia ali. De dia, pagava seu consumo com faxina e outros serviços gerais. Negócio fechado.

Dizem, mas aí acho que é conversa, que nosso herói já estava em Lima quando a namorada ligou, com saudade. Descobriu, depois de um ano de relacionamento, que o Trinta e Sete era gente como você e eu, um flamengo doido de pedra. “Você nem passou em casa, é maluco mesmo!”. Mas o Trinta e Sete agiu certo. Ele refletira: caso desse um pulo em casa para buscar casaco, dar um beijo na mãe e um abraço no pai, que está meio doente – seu tio, inclusive, foi uma das vítimas fatais dessa onda de Covid, há poucas semanas – ele sabe que desistiria. O único jeito de ir ver o Mengo era não pensar em mais nada e se enfiar dentro do ônibus.

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O ingresso apareceu na tarde do jogo, graças à rapaziada. Cada um contribuiu com um pouco, e conseguiram a entrada no mercado paralelo com outros amigos flamengos. Agora era com Gabigol & cia! Pra cima deles, Flamengo!

Não podia dar errado, e não deu. Ao voltar do estádio, Lima era o Rio de Janeiro, e o Trinta e Sete era o rubro-negro mais feliz do mundo. No embalo da festa, a gerente do estabelecimento fez o convite: por que ele não ficava? Era ótimo trabalhador, todos gostavam dele e ele podia continuar a dormir por ali. E, imagino, nem deve ter insistido, pois pensou: “Imposible! Como un muchacho desse vai trocar uma nacion linda e tão bien gobernada como el Brasil, ainda mais el Rio de Janero, por Lima…!” No sabes nada, inociente…

E foi assim, meus amigos, que quando o quarto ônibus ligou os motores e fechou as portas, o Trinta e Sete não estava nele. Ressacados pela glória eterna, os amigos ainda tinham mais essa para contar, deixando os grupos de zap da galera em polvorosa: “Mano, o cara ficou! kkkkkk”

Hoje, depois de oito meses, o Trinta e Sete segue empregado e comprou uma motocicleta em Lima. Na minha cabeça, já deve ter aprendido a preparar o melhor dos ceviches e aqueles drinques peruanos estupendos. Todo santo mês, ele envia um dinheirinho para a mãe.

E ele ainda não pode ver, mas quando seu nome é citado nos churrascos e ruas do morro, os olhares e sorrisos são outros. “Cara obstinado é aquele”, dizem as vizinhas. “Ele agora é celebridade”, afirma um amigo de infância. “Graças ao Flamengo e aos próprios esforços, ele é o herói da molecada da favela. É o cara que foi a Lima sem nada no bolso, ajudou o Mengo a ser campeão e refez a vida. Contra tudo e contra todos. De virada.”

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E ninguém mais lembra, ou quase ninguém, aquela cena no churrasco, quando nosso herói pegou a carteira e mostrou para os amigos: “Quer saber? Eu vou. Vou com vocês, mas olha aqui tudo que eu tenho: com as moedas, humm, estou com 37 merréis!”

Vou-me embora para o Peru, lá sou amigo do rei! Um rei de chinelos e bermudas, sim, mas que só nos prova a velha máxima de Fernando Sabino, a que diz: no fim dá tudo certo – se não deu, é porque ainda não chegou ao fim. Ainda mais para quem tem amigos, uma pitada de coragem e o Flamengo no coração.

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